Se você passou pela Vila Brasil nas últimas semanas, pode ter estranhado a ausência de meninos perambulando pelas ruas, cena tão comum nas férias de verão. Quer saber onde foram parar os jovens moradores de um dos bairros mais antigos de Londrina? Siga os gritos de ''passa a bola'', ''foi falta'', ''goooooool'' e irá encontrar até 20 deles no campinho do Parque Venâncio Bernardo da Silva, perto do posto de saúde.
O gramado é feio, a bola é velha, mas nada segurou o presidente da Associação de Moradores, Daniel Ribeiro, depois que ele decidiu que não podia deixar a molecada da Vila Brasil à toa. ''Eu fiquei olhando aquelas patotas de meninos sem fazer nada, aprontando, chutando lata aqui e ali, e resolvi dedicar as manhãs de janeiro para dar uma atividade a eles. Perguntei se preferiam a rua ou a bola. Eles escolheram a bola'', lembra.
Ribeiro conta que há quatro meses, quando assumiu a associação, criou uma escolinha de futebol no bairro e conseguiu dois moradores dispostos a dar aulas de graça à noite. As atividades só foram interrompidas porque os voluntários tiraram férias. Como os meninos também estavam fora da escola, o presidente decidiu levá-los ao campinho toda manhã.
''Eu não estava fazendo quase nada nas férias, só skate e um rachão de vez em quando. Aqui, a gente se diverte com os amigos e sempre aprende alguma coisa'', diz o zagueiro Luis Fernando da Silva, 15 anos. ''Ficava na rua batendo perna, só pra não ficar dentro de casa. Foi bom vir treinar toda manhã porque ocupa o tempo'', completa Paulo Ricardo Sampaio Matos, 15 anos, que não gosta mesmo de ficar parado: ele pretende continuar jogando pela manhã, frequentar a Guarda Mirim à tarde e estudar à noite.
A atividade matinal é levada à sério. A maioria dos adolescentes, com idades entre 11 e 15 anos, tem pretensões profissionais. Quatro deles já passaram nos testes do caça-talentos PSTC, de acordo com Ribeiro. Ele ressalta, entretanto, que o principal objetivo é impedir que os jovens passem para o ''lado de lá'' - espaço subjetivo onde ficam meninos que não conseguem se interessar por outra coisa senão as drogas. ''Às vezes eles se aproximam da gente pra pedir papel (para embrulhar drogas), nunca a bola'', diz Paulo. ''Bem que gostaríamos de trazer 'os de lá' para o nosso lado, mas precisaríamos de outras atividades'', afirma Ribeiro.
Para alcançar esse intuito, os moradores estão invertendo a ordem comum entre comunidade e poder público: ao invés de passar anos implorando por uma iniciativa, a associação está reformando um imóvel abandonado para oferecê-lo à prefeitura. ''Ficamos excluídos de atividades culturais do Município porque não temos um centro comunitário. Agora isso não vai mais ser desculpa. Não podemos passar o ano inteiro chorando as pitangas, esperando que a prefeitura faça alguma coisa''.

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