Menino rema 28 km para ir à escola
PUBLICAÇÃO
domingo, 30 de novembro de 1997
Paulo Pegoraro 
Cascavel
Edson MazzettoNotas boasA professora Irene Soares e Jean, na sala de aula em Terra RoxaJean Carlos da Silva Rodrigues percorre diariamente 28 quilômetros em uma pequena canoa, remando sozinho pelo Rio Paraná, para frequentar a escola em Terra Roxa (132 quilômetros ao norte de Cascavel). Entre o local onde encosta a canoa e a escola são mais 40 quilômetros entre ida e volta, em ônibus da prefeitura que, pelo caminho, recolhe outros alunos. Jean tem apenas 12 anos, corpo franzino, e mora com os pais em uma ilhota.
O formidável esforço do menino para ir à aula pode emocionar outras pessoas, inclusive colegas e professoras, mas ele próprio acha tudo normal e só reclama do cansaço. Afinal, rio abaixo é uma hora de remadas e, rio acima, contra a correnteza, três horas. Para aliviar o esforço físico, Jean adaptou dois remos na pequena canoa que encontrou vagando sozinha pelo Rio Paraná e dela tornou-se dono de fato.
Edson MazzettoPosseA canoa usada pelo menino foi encontrada vagando pelo Rio Paraná
Nos últimos dias, com fortes e intermináveis chuvas, a canoa permaneceu apoitada (ancorada) e cheia de água na margem do Rio Paraná, de onde Jean segue a pé por um bosque até chegar ao ponto de ônibus do transporte escolar. O próprio transporte ficou comprometido, porque há um trecho de 20 quilômetros tomado pela lama, até chegar ao asfalto da BR-272, que dá acesso a Terra Roxa. Jean abrigou-se, antes das chuvas, na casa de uma família conhecida na cidade.
O menino mora na ilhota com a mãe Ana Lúcia Rodrigues, 28 anos, e o padrasto Áureo Brum, 27 anos. Apesar das 4 horas que passa remando, Jean ainda ajuda nas roças de arroz e feijão e na pesca. As tarefas escolares ele faz no tempo que sobra, inclusive à luz gerada por motor. Pela manhã, toma apenas o café; ao meio-dia fica sem almoço para chegar a tempo na aula, que começa às 13 horas, no Colégio Estadual Costa e Silva onde frequenta a 4ª série.
A merenda fornecida pela escola no recreio acaba sendo a principal alimentação do dia (os professores estão procurando agora assegurar-lhe o almoço diário). Jean Rodrigues é um menino esperto, que fala pouco mas de forma bem articulada. Ele conta que seu pai morreu há 2 anos, na explosão de um galpão onde havia latas de gasolina, por isso inicialmente foi morar com uma tia em Iporã e depois com o avô em Terra Roxa, mas não dava certo.
Desde o início do ano letivo Jean raramente tem faltado às aulas, só quando chove muito e dá vento forte que joga a canoa. Quando chove fraco, protege livros e cadernos com plásticos. Fora isso, ele não vê risco. A mãe fica preocupada apenas quando ele chega muito tarde. A aula termina às 17 horas e como há também o trecho de ônibus, ele retorna à ilhota apenas por volta de 21 horas. Se eu quero estudar, tenho que me virar.
Jean sabe que não há outra forma, e diz que vale a pena. Ele não quer viver para sempre na ilhota e, um pouco tímido, reluta para revelar o que quer ser no futuro: Advogado.... Enquanto não houver alternativa às viagens diárias na canoa, ele seguirá com a certeza de que vai obter aprovação este ano e nos outros. Os pais de Jean chegaram a argumentar com ele sobre os riscos do rio, mas acabaram concordando. A decisão foi minha, conta.
Bom aluno A professora Irene Soares, que leciona para a turma de 32 crianças da qual Jean faz parte, diz que ele é bom aluno, tem bom comportamento e boas notas e só falta quando não dá mesmo para sair da ilha. Irene diz não se lembrar se alguma vez ele deixou de fazer os deveres de casa. É excelente aluno de Matemática, conta. No recente Provão que avaliou escolas, Jean foi muito bem.
A diretora do colégio Marli Almeida de Jesus destaca o grande esforço que o menino faz para frequentar aulas mas reconhece que só tomou conhecimento de seu caso há poucos dias. Ela observa que é possível tentar ajudá-lo com a alimentação ao meio-dia. Uma integrante do Conselho Tutelar de Terra Roxa, informada da história de Jean, mostrou-se impressionada, e brincou: Gostaria de mostrar a reportagem para meus filhos, quando reclamarem de dificuldade para ir à escola....


