Cascavel

Edson MazzettoNotas boasA professora Irene Soares e Jean, na sala de aula em Terra RoxaJean Carlos da Silva Rodrigues percorre diariamente 28 quilômetros em uma pequena canoa, remando sozinho pelo Rio Paraná, para frequentar a escola em Terra Roxa (132 quilômetros ao norte de Cascavel). Entre o local onde encosta a canoa e a escola são mais 40 quilômetros entre ida e volta, em ônibus da prefeitura que, pelo caminho, recolhe outros alunos. Jean tem apenas 12 anos, corpo franzino, e mora com os pais em uma ilhota.
O formidável esforço do menino para ir à aula pode emocionar outras pessoas, inclusive colegas e professoras, mas ele próprio acha tudo normal e só reclama do cansaço. Afinal, rio abaixo é uma hora de remadas e, rio acima, contra a correnteza, três horas. Para aliviar o esforço físico, Jean adaptou dois remos na pequena canoa que encontrou vagando sozinha pelo Rio Paraná e dela tornou-se dono de fato.
Edson MazzettoPosseA canoa usada pelo menino foi encontrada vagando pelo Rio Paraná
Nos últimos dias, com fortes e intermináveis chuvas, a canoa permaneceu ‘‘apoitada’’ (ancorada) e cheia de água na margem do Rio Paraná, de onde Jean segue a pé por um bosque até chegar ao ponto de ônibus do transporte escolar. O próprio transporte ficou comprometido, porque há um trecho de 20 quilômetros tomado pela lama, até chegar ao asfalto da BR-272, que dá acesso a Terra Roxa. Jean abrigou-se, antes das chuvas, na casa de uma família conhecida na cidade.
O menino mora na ilhota com a mãe Ana Lúcia Rodrigues, 28 anos, e o padrasto Áureo Brum, 27 anos. Apesar das 4 horas que passa remando, Jean ainda ajuda nas roças de arroz e feijão e na pesca. As tarefas escolares ele faz ‘‘no tempo que sobra’’, inclusive à luz gerada por motor. Pela manhã, toma apenas o café; ao meio-dia fica sem almoço para chegar a tempo na aula, que começa às 13 horas, no Colégio Estadual Costa e Silva onde frequenta a 4ª série.
A merenda fornecida pela escola no recreio acaba sendo a principal alimentação do dia (os professores estão procurando agora assegurar-lhe o almoço diário). Jean Rodrigues é um menino esperto, que fala pouco mas de forma bem articulada. Ele conta que seu pai morreu há 2 anos, na explosão de um galpão onde havia latas de gasolina, por isso inicialmente foi morar com uma tia em Iporã e depois com o avô em Terra Roxa, ‘‘mas não dava certo’’.
Desde o início do ano letivo Jean raramente tem faltado às aulas, ‘‘só quando chove muito e dá vento forte que joga a canoa’’. Quando chove fraco, protege livros e cadernos com plásticos. Fora isso, ele não vê risco. A mãe fica preocupada apenas quando ele chega muito tarde. A aula termina às 17 horas e como há também o trecho de ônibus, ele retorna à ilhota apenas por volta de 21 horas. ‘‘Se eu quero estudar, tenho que me virar’’.
Jean sabe que não há outra forma, e diz que ‘‘vale a pena’’. Ele não quer viver para sempre na ilhota e, um pouco tímido, reluta para revelar o que quer ser no futuro: ‘‘Advogado...’’. Enquanto não houver alternativa às viagens diárias na canoa, ele seguirá com a certeza de que vai obter aprovação este ano ‘‘e nos outros’’. Os pais de Jean chegaram a argumentar com ele sobre os riscos do rio, mas acabaram concordando. ‘‘A decisão foi minha’’, conta.
Bom aluno A professora Irene Soares, que leciona para a turma de 32 crianças da qual Jean faz parte, diz que ele ‘‘é bom aluno, tem bom comportamento e boas notas’’ e só falta ‘‘quando não dá mesmo para sair da ilha’’. Irene diz não se lembrar se alguma vez ele deixou de fazer os deveres de casa. ‘‘É excelente aluno de Matemática’’, conta. No recente Provão que avaliou escolas, Jean ‘‘foi muito bem’’.
A diretora do colégio Marli Almeida de Jesus destaca o ‘‘grande esforço’’ que o menino faz para frequentar aulas mas reconhece que só tomou conhecimento de seu caso ‘‘há poucos dias’’. Ela observa que é possível tentar ajudá-lo com a alimentação ao meio-dia. Uma integrante do Conselho Tutelar de Terra Roxa, informada da história de Jean, mostrou-se impressionada, e brincou: ‘‘Gostaria de mostrar a reportagem para meus filhos, quando reclamarem de dificuldade para ir à escola...’’.

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