Genivaldo Xavier, o ‘‘Zequinha’’, morador do bairro União da Vitória 2, zona sul de Londrina, mal completou os 18 anos e se transformou em um número. Nos arquivos policiais ele consta como a 35ª vítima de assassinatos registrados este ano na cidade. Ele foi executado com duas balas na cabeça. Foi encontrado no meio da noite, de bruços, de bermuda e sem camisa, estirado no asfalto da Rua dos Cozinheiros.
O aniversário de 18 anos, no dia 18 de janeiro, foi comemorado sem bolo e nem vela no Educandário São Francisco, em Curitiba, onde ele cumpriu pena de um ano e quatro meses. De lá foi encaminhado para uma clínica de recuperação de drogados em Rolândia, mas fugiu há cerca de 20 dias. Voltou para o União da Vitória e encontrou guarida na casa da irmã, Elenice Xavier, quase tão nova quanto ele. Arranjou um trabalho de ajudante de pedreiro, no mesmo bairro em que as ruas levam nomes de profissões. Ele, que na criminalidade experimentou de tudo um pouco, desde pequenos furtos até uma tentativa de homicídio, não tinha qualificação. ‘‘Só tirou o 2º ano primário’’, diz a irmã, de 22 anos.
Perambulou nas ruas desde os seis anos. No educandário corretivo, que ele descreveu à irmã como sendo um ‘‘canil’’, prometeu a ela e a si mesmo que não queria mais aquela vida. Na última carta escrita a Elenice, não quis colocar a data ‘‘para não virar passado’’. Certamente as cartas foram ditadas a algum colega mais letrado, diz a irmã.
Na última carta, ele fala da infância que nunca teve, quando ‘‘corria de um lado para outro’’, da ‘‘saudade do perfume de rosas que longe estão’’. Ele lamenta a liberdade perdida na carta escrita em letra miúda: ‘‘Saudade da liberdade que perdi e que um dia encontrarei’’. (Maranúbia Barbosa)

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