Menino poeta expõe sua obra na UEL
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quinta-feira, 16 de setembro de 2004
Luciano Augusto<br>Reportagem Local 
O menino que começou a fazer poesias inspirado pelos livros que sua mãe encontrava no lixo teve uma grande noite, anteontem. Klayton Rodrigues de Souza, 14 anos, expôs seus textos na Universidade Estadual de Londrina (UEL) e emocionou a todos. Mas o menino carente que mora numa área ocupada no Jardim Santa Fé, Zona Leste da cidade, continua o mesmo: agora, assim como antes, ele continua poeta. Afinal, nasceu poeta.
Escrevendo sobre as dificuldades de ser um garoto pobre numa sociedade que faz apologia à riqueza, Klayton ensina com simplicidade desconcertante que sensibilidade é uma coisa que não se conquista. Ou se é sensível ou não. É o que transparece, por exemplo, no poema ''Vida'': ''É no verão / Ao sol sentir calor / É cortar o dedo / É sentir dor / É um barulho ouvir / É um sentimento / de ódio sentir / É ter esperança de algo alcançar / É para comer o bicho / ter que o matar / É ter medo da escuridão / E ter cisma da solidão / É um caminho / de ida sem vinda / Isso que é a vida.''
Em sua noite de estréia, como um verdadeiro artista, o garoto manteve a simplicidade. Ao chegar na sala onde estavam expostos seus escritos, o menino parecia não acreditar que tudo o que havia era para ele. Mas com a mesma simplicidade que escreve suas poesias, agradeceu a oportunidade oferecida pelas acadêmicas do segundo ano noturno do curso de Relações Públicas da UEL, leu quatro poesias inéditas e avisou que vai seguir escrevendo. Ouviu os elogios, deu explicações sobre sua obra e recebeu proposta para participar de um projeto de leitura desenvolvido em escolas públicas por alunas do curso de Letras da instituição. ''Estou muito feliz. Acho que o aconteceu hoje (anteontem) vai me dar muitas oportunidades. Pretendo publicar um livro e hoje foi um primeiro passo'', comentou o jovem escritor, logo depois de ser homenageado.
A mãe, a catadora de lixo Bernardete Rodrigues de Souza, era pura alegria. O analfabetismo não impediu que ela transformasse em presente os livros que encontrou jogados fora. ''Jamais imaginei que o Klayton iria pegar naqueles livros. Estou bem mais feliz do que vocês todos'', confessou. Ela criticou o preconceito por morar em um bairro pobre e lembrou que ''na periferia também existem pessoas boas'' e, porque não, talentosas.
A emoção também tomou conta das sete acadêmicas de Relações Públicas que realizaram a exposição ''Menino Poeta - A Arte que Brota do Inesperado''. ''Tomamos a decisão de fazer esse trabalho quando fomos visitá-lo. Quando falamos, os olhos dele se encheram de lágrimas'', recordou a estudante Marina Esteves Beloni. Outra integrante do grupo, Vanessa Petri Costa, comentou que os patrocínios também foram obtidos graças ao talento de Klayton. ''Todos decidiram incentivá-lo quando conheceram sua história'', revelou.
O público presente à exposição também não ficou indiferente às poesias do garoto. Mais acostumado a números e balancetes, o estudante de Ciências Contábeis, Lincoln José dos Santos, confessou que ainda é iniciante na leitura de poesias mas ficou espantado com o estilo do jovem poeta. ''O texto é organizado e lendo as poesias do Klayton parece que ele tem muito mais idade. É um exemplo de brasileiro'', comentou. O estudante de jornalismo Vinícius Konchinski também elogiou o trabalho. ''O estilo (das poesias) é de um adolescente que está crescendo, que expressa seus problemas pessoais e do mundo.''


