Menino ''morto'' prova que está vivo e obtém identidade
Paulo Pegoraro
De Cascavel
Marcelo Bordinhão, 15 anos, de Cascavel, exibiu orgulhoso ontem sua Carteira de Identidade expedida pelo Instituto de Identificação do Paraná, com data de 26/10/99. O documento sela o fim de uma situação insólita: para efeitos legais, Marcelo estava morto desde 1985, quando tinha 1 ano de idade. O óbito havia sido atestado por um cartório local, com base em declaração falsa do pai do adolescente, o lenhador Alberto Bordinhão, com falso testemunho de duas pessoas.
O recebimento da Carteira de Identidade por Marcelo motivou ato especial com presença de sua mãe, a empregada doméstica Neli Bordinhão, 40 anos, do delegado-chefe da 15ª Subdivisão Policial (SDP) Aroldo Davidson, e do advogado Paulo Gomes Júnior da Comissão de Direitos Humanos da Ordem dos Advogados do Brasil no Paraná. Gomes, que é procurador do Estado em Foz do Iguaçu, diz ter entrado no caso por insistentes pedidos de Neli. A promotora Marlene Jordão, de Cascavel, porém, o acusa de intromissão indevida e de explorar a situação delicada de um menor para chamar atenção para si.
A promotora denunciou Gomes à Procuradoria-Geral de Justiça do Paraná, mas ele não chegou a ser submetido a enquadramento. Processo para a anulação da certidão de óbito tramitava na Comarca de Cascavel, e nele atuava Marlene Jordão, que garante ter dado todos os encaminhamentos necessários ao caso, sem necessidade de sua exposição pública. O advogado entrou em cena há cerca de dois meses, alegando que a solução demorava. No início do mês, ele conseguiu gratuitamente (e anexou ao processo) um exame de DNA de Marcelo e Neli, comprovando tratar-se de mãe e filho.
O exame, que custou R$ 800,00, foi pago por um laboratório de Cascavel e era exigência para que o rapaz fosse reconhecido como vivo. Não há informação sobre o pai de Marcelo desde que ele se separou da família, em 85, e também não se sabe onde estão as testemunhas que apresentou para o atestado. Paulo Gomes Júnior especula que ele possa ter pretendido se livrar de pensão alimentícia.
Na época, cartórios observavam critérios menos rígidos para expedir atestado do qual Neli Bordinhão só soube quando tentou matricular o filho na escola e não encontrou o registro. Por isso, foi necessária a intervenção da Justiça e da Secretaria Municipal de Educação, para que a escola o aceitasse. Com o DNA, foi possível anular o documento, restabelecendo-se o registro de nascimento, e permitindo a obtenção da Carteira de Identidade. Foram 5 anos de luta para acertar a vida do menino, relata Neli. Marcelo, ao exibir a identidade, brincou: Agora estou vivo, sou gente.





