Menino luta para tirar mãe da cadeia
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segunda-feira, 05 de abril de 2004
Vanessa NavarroReportagem Local 
''Dr. Laertes tire minha mãe da cadeia para mim.'' Sem rodeios, o estudante O. T., 13 anos, inicia a carta através da qual, acredita, poderá ajudar a libertar a mãe, presa há dois meses por suspeita de tráfico de drogas. O apelo chegou ao escritório do advogado Hamilton Laertes na última sexta-feira. Junto com a carta, ele recebeu R$ 70,00. Foi tudo que o adolescente conseguiu juntar na expectativa de pagar uma fiança.
Sensibilizado, Laertes decidiu reassumir a defesa da artesã E. G., 43 anos, para quem já havia advogado em 2001. Naquele ano, a mulher foi presa sob a mesma acusação de agora, e absolvida. De acordo com o advogado, as circunstâncias se repetiram: ela teria sido detida injustamente, por conta do vício do companheiro, que também foi preso em ambas as ocasiões. O filho expressa a situação na carta. ''É a segunda vez que ela vai presa por causa dele, ele finge que gosta de nós, mas se gostasse parava de fumar maconha'', escreve, se referindo ao padrasto, E. S., 30 anos.
No dia 26 de janeiro, policiais militares encontraram 190 gramas de maconha enterradas no quintal da casa da artesã, no Conjunto Parigot de Souza (Zona Norte). Ela foi presa em flagrante junto com o companheiro que, mais tarde, assumiu sozinho a posse da droga e declarou que era viciado. Mesmo diante do depoimento, E. G. permaneceu detida. Sua família se desestruturou. Ela está presa no 3º Distrito Policial (DP); o companheiro, no 2º DP. O filho mais novo, responsável pela carta, foi morar com a avó, na região central. Bem longe do irmão, de 15 anos, que ficou sob os cuidados de uma vizinha na Zona Norte.
Por detrás das grades, a artesã chora ao lembrar da família. ''Ele (o filho caçula) vê o sofrimento da mãe e fica revoltado, por isso escreveu essa carta. O mais velho não come, parou de estudar, diz que não volta enquanto eu estiver aqui. Os meninos, nessa idade, não obedecem a ninguém, só a mãe. Éramos todos muito ligados'', diz. E. G. afirma que, ao se juntar com o atual companheiro, há quatro anos, tinha esperança de pregar a palavra de Deus e fazê-lo largar as drogas. ''Ele é muito trabalhador, mas tudo que ganha é para o uso da droga'', lamenta. O ex-marido e pai dos meninos, também viciado, deixou a família há cinco anos.
O. T. começou a se preocupar cedo com os problemas da família. O adolescente lembra que se metia nas brigas do pai com o irmão mais velho, e acabava apanhando. Um dia chegou para a mãe e disse: ''Cria vergonha na cara''. Foi um incentivo para que ela se separasse. Hoje, O. T. luta para ter a mãe de volta. ''Tô fazendo o possível para tirar ela da cadeia. Vendi uma calça jeans por R$ 40,00, uma cinta por R$ 10,00, e meu tio me deu mais R$ 20,00. Juntei R$ 70,00 para ajudá-la. Não quero mais ver minha mãe presa'', argumenta. Ele lembra que já recebeu ofertas de drogas mas nunca aceitou. ''A gente vê tanta coisa na tevê, as pessoas se acabando por causa das drogas, eu nunca quis isso para mim'', garante.
O advogado Hamilton Laertes vai requerer na Justiça o relaxamento da prisão de E. G. A defesa está sendo feita gratuitamente. Ontem, ele pediu autorização da cliente para utilizar a carta em sua defesa. ''Promotores e juízes têm de ser sensibilizados. Estamos vivendo uma situação em que, ao invés dos pais protegerem os filhos, um garoto nos procura para interceder pela mãe. É comovente''.


