Menino foge escondido em ônibus
Érika Pelegrino
De Londrina
O drama de Maria da Piedade Fernandes Ferreira, diarista, quatro filhos, moradora da Vila Recreio, (centro de Londrina) começou no dia oito de julho deste ano. O filho Sidney, 12 anos, embarcou escondido num ônibus da Viação Garcia com destino a São Paulo.
Em Cambará foi descoberto por fiscais e encaminhado para o escritório da Viação Garcia daquela cidade. Lá foi pedida orientação para o gerente de vendas de Londrina, Nelson Ribeiro, sobre qual conduta tomar. O garoto foi embarcado, com uma passagem, em outro ônibus da companhia com destino a São Paulo.
Chegando lá, Sidney teria roubado a carteira do motorista e fugido. Há mais de 15 dias não há notícias de seu paradeiro. A mãe contou que ficou sabendo da história porque uma senhora que viajava no ônibus que saiu de Londrina reconheceu a foto do garoto na televisão.
O gerente de vendas da Viação Garcia afirmou que autorizou que Sidney continuasse a viagem, porque o menino disse que tinha parentes em São Paulo. A tentativa foi de ajudá-lo, disse. Chegando em São Paulo, um carro particular da empresa iria levá-lo até a casa de seus parentes, este é o procedimento normal da Viação Garcia nestes casos, mas o garoto fugiu, justificou.
O promotor interino da Vara da Infância e Juventude, Miguel Jorge Sogaiar, explicou que o próprio Estatuto da Criança e do Adolescente em seu artigo 2º, permite que adolescentes a partir dos 12 anos completos viajem dentro do País sem autorização dos pais, apenas com um documento de identidade.
No meu entender, o Estatuto deveria ser revisto, afirmou. Segundo o promotor, a empresa de ônibus não cometeu nenhuma irregularidade quanto à viagem do garoto, mas neste caso específico o adolescente estava em uma situação de risco - viajando sem documentos e sem dinheiro, escondido - e deveria ter sido encaminhado a um Conselho Tutelar.
A mãe de Sidney não se conforma com a facilidade que uma criança tem para pegar um ônibus e viajar. Eu não entendo estas leis. Com 14 anos não pode trabalhar, mas com 12 anos pode viajar sozinho, disse. Sidney já fugiu de casa quando tinha 11 anos e foi para São Paulo, também, de carona. Eu fui buscá-lo no SOS Criança porque ele ligou para minha irmã no Mato Grosso e ela avisou as pessoas do Terminal Tietê em São Paulo que o levaram para o S0S, contou. Mas desta vez ele não ligou para ninguém.
Maria Ferreira contou que Sidney está envolvido com drogas. Descobri este ano que ele cheira cola desde os nove anos, disse. Desde bebê ele era muito agitado. Eu levei ele num neurologista e aos seis anos descobri que meu filho é hiperativo, contou.
Desde então Maria Ferreira vem tentando tratamentos para Sidney. Agora ele estava tomando xarope à base de cafeína e estava começando a ter resultado, contou. A mãe conta que Sidney é um garoto muito inteligente. Na escola ele aprende tudo sem escrever nada, só de ouvido. Só pelo barulho do motor de um carro ele sabe dizer qual é o defeito, contou.
A expectativa de Maria Ferreira é encontrar o filho vivo. O pessoal do Conselho Tutelar está ajudando, mas eu não sei se vou achar o Sidney vivo. Só queria saber como uma criança pode viajar sozinha. Que lei é essa?, questionou.
A conselheira Marilda Regina da Silva afirmou que já foram enviadas fotos de Sidney para o Conselho Tutelar e o SOS Criança em São Paulo, para o Movimento de Crianças Desaparecidas em Curitiba, e já foram feitos contatos com Foz de Iguaçu e Maringá. É isto que é possível fazer, afirmou.





