Walter Ogama
De Londrina
O menino F.R.G.A. comemorou no último dia 2 os seus 10 anos de idade longe dos pais. O bolo de aniversário também serviu para marcar os 84 anos da avó, Brigida Araci Guerber, que também nasceu no dia 2 de fevereiro.
A ausência dos pais no encontro que reuniu alguns dos membros da família tem duas causas: a mãe de F.R.G.A., Adriana, faleceu aos 23 anos de idade quando ele havia completado o seu segundo ano de vida e o não comparecimento do pai é reflexo de uma história triste.
Há um ano, em início de março de 1999, F.R.G.A. conseguiu escapar de uma tempestade que até os dias de hoje pesa em suas lembranças, graças a atitude do avô Amazino Guerber, que no próximo dia 4 completa 85 anos.
Na ocasião o avô registrou queixa na 10ª Subdivisão Policial de Londrina contra o ex-genro Rogério Antunes, acusando-o de maus-tratos contra o neto.
A história que o menino contou à polícia e promotoria pública envolve também a madastra de F.R.G.A., Michele Antunes, e incluem atos de violência que um bom número de pessoas imagina existir apenas em cenas de filmes da TV.
Mas os exames de lesão corporal feitos no Instituto Médico-Legal (IML) de Londrina confirmara: o menino enfrentava verdadeira sessão de tortura em casa, praticada pelo pai e pela mãe.
As orelhas roxas e machucadas, apresentando inclusive cortes em consequência de puxões, eram provas. A enorme mancha nas costas provocada pela fivela de metal de um cinto também.
Além disso, queimadura pelas mãos e, entre as evidências mais chocantes, as marcas nos joelhos das tampinhas de garrafas de refrigerantes. Segundo Amazino Guerber, as tampinhas eram colocadas com as bordas viradas para cima, na sala da casa, e o menino era obrigado a permanecer ajoelhado sobre elas por até uma hora, com as mãos postas como se estivesse rezando.
Enquanto isso, conforme relatou F.R.G.A. no Ministério Público, o pai e a madastra assistiam TV.
A avó Brigida Araci Guerber diz que o menino era também obrigado a lavar e passar roupas, limpar a casa e cumprir outras tarefas domésticas. Mas naquele início de março ele resolveu fugir de casa, num bairro da zona oeste da cidade, para procurar o avô no Jardim Leonor, também na zona oeste.
Passado um ano, F.R.G.A., aluno da 4ªsérie do primeiro grau, garante que todo o sofrimento que enfrentou faz parte do passado. Ele chama os avós de ‘‘pai’’ e ‘‘mãe’’, palavras que enchem os olhos de Amazino e Brigida. Diz ser feliz e ser conversador na escola, mas demonstra muita timidez na presença de estranhos.
Confessa que não é muito dedicado aos estudos e se considera um estudante médio. Gosta de música sertaneja e, em casa, liga o aparelho de som para cantar acompanhando os astros desse gênero musical. Revela: quer ter um caminhão no futuro. Assegura, mais uma vez: é uma outra vida a que esta vivendo com os avós.
Mas Amazino e Brigida não se convencem. Segundo os avós, o menino sente muito medo, principalmente quando está fora de casa. Tornou-se mais quieto, embora continue com as travessuras de uma criança de 10 anos. ‘‘Não deixa de ser um pouco revoltado’’, diz o avô.
Loiro e de olhos claros, o menino demonstra hoje uma saúde que no passado quase perdeu por culpa do pai e da madastra. O rosto corado revela isso. A camiseta branquinha e o bermudão de jeans, desses que os meninos usam, demonstram que F.R.G.A. recebe um tratamento digno por parte daqueles que o acolheram para sempre, conseguindo na Justiça a guarda definitiva da criança.
O menino que esconde lembranças amargas atrás da aparente timidez por sorte encontrou em seu novo lar, além de muito amor, uma outra história, também de bastante amor.
Amazino e Brigida são pais de 12 filhos e adotaram mais um, Adriana, a mãe de F.R.G.A., que faleceu quando tinha 23 anos vítima de uma ataque cardíaco, em consequência da bronquite que a atormentava e dos fortes medicamentos que era obrigada a usar.
Além desses 13 filhos, o casal criou outros nove, entre eles um índio. Todos eram crianças de famílias carentes e em dificuldades. Conhecendo a bondade de Amazino e Brigida, os pais os entregavam para o casal cuidar, sem se preocuparem com papéis de adoção ou outras formalidades.
Amazino nasceu em São Jerônimo da Serra e antes de se aposentar trabalhou a maioria dos anos na lavoura, como proprietário rural. O caminho para a zona urbana foi aberto com a compra de um restaurante em Ibiporã. Dali a família veio para Londrina.
Brigida é de Itararé (SP) mas cedo veio para o Paraná, onde morou em São Jerônimo da Serra e Tamarana. O casamento de Amazino e Brigida ocorreu em 1934.
Antes da implantação da cafeicultura no Norte do Paraná, a família tinha como principal fonte de renda a suinocultura, mas no sistema antigo: Amazino era um safrista, criador do passado que engordava e transportava porcos para comercialização nos mercadores consumidores. A atividade proporcionava boa renda familiar, até a chegada da peste suína. Mas Amazino, que chegou a perder toda a criação, conseguiu se refazer.
Lembranças. Acomodado numa velha cadeira colocada na varanda da casa, Amazino, de vez em quando, parece ter os olhos avermelhados. Sensação que se sente principalmente quando ele faz comentários sobre F.R.G.A., o filho-neto que ele salvou em março do ano passado, da mesma forma como fez com outras nove crianças.
‘‘Comigo ele é chegado. Para a avó ele é um xodó’’, diz.