Menino cheira para não sentir fome
PUBLICAÇÃO
sábado, 19 de julho de 1997
Da Redação 
O adolescente Beto, 17 anos, vive nas ruas de Londrina desde que seus pais se separaram, há dez anos. Ele abandonou a escola ainda durante a 1ª série, e juntou-se a um grupo de crianças e adolescentes que passam os dias praticando pequenos furtos para sobreviver. Eles dormem embaixo de pontilhões, de árvores nas praças, ou em casas abandonadas - os chamados mocós - no centro da Cidade.
Beto e seus colegas consomem cola e outros tipos de drogas diariamente. Aqui a gente usa maconha, crack, cocaína, um pouco de tudo. Mas o mais comum é mesmo a cola de sapateiro, porque é mais barata e fácil de comprar, diz Beto. Ele conta que já trabalhou em sítios - plantações de café, arroz e milho - e como ajudante de padarias e açougues em Londrina.
Eu sou viciado em cola. Cheiro todos os dias, mais para esquecer a fome, nas horas de almoço e janta que não tenho, afirma o adolescente. Ele não vê a mãe - que mora em Ibiporã - há mais de três anos, e não sabe onde vive o pai, que foi embora de Londrina há cinco anos. Segundo Beto, a cola - que é comprada por amigos maiores ou roubada em tapeçarias - o deixa muito tranquilo, longe dos problemas da rua, a fome, a falta de dinheiro, a falta de casa para morar, o frio e a chuva.
Alex, 13 anos, saiu da casa dos pais há dois anos e faz parte do mesmo grupo de Beto. Ele e outros 15 menores batem ponto no cruzamento da avenida Leste-Oeste com a rua Minas Gerais (área central); a pouco metros da sede do Conselho Tutelar, que fica na Supercreche-Cidade da Criança. Eles fumam maconha, cheiram cola e praticam pequenos furtos à luz do dia. Há meses, a polícia, as autoridades e boa parte dos londrinenses sabem que eles vivem naquele local.
Comecei cheirando esmalte da minha mãe e tintas do meu pai, que é pintor. Depois, eu brigava a apanhava muito dos meus irmãos mais velhos; achei melhor fugir de casa. Na rua, encontrei bons amigos e comecei a cheirar cola de sapateiro, lembra Alex. De acordo com ele, funcionários da Prefeitura já apareceram para conversar, mas também não tinham escola e alojamento para onde levá-los. Sem escola, sem casa e sem trabalho, a gente vai ficando por aqui mesmo. A cola, pelo menos, ajuda a esquecer a fome e a ficar mais alegre.
Carla, 15 anos, fugiu de casa depois de ser assediada sexualmente várias vezes pelo padrasto, que havia se casado com a mãe dela recentemente. Meus pais brigavam muito e se separaram quando eu tinha 11 anos. Dois anos depois, minha mãe casou-se de novo. Meu padrasto estava desempregado e ficava em casa, comigo e outros dois irmãos mais novos. Quando minha mãe ia trabalhar, ele começava a me fazer carinho. Até que um dia, bêbado, ele me estuprou. Aí eu fugi de casa e vim morar na rua. Foi quando conheci e comecei a usar a cola e as outras drogas, conta a menor, que hoje se prostitui para sobreviver.
(Osmani Costa)


