Menina morre à espera de uma UTI
Lúcio Horta
Milton DóriaDemora fatalLídia Soares com foto de Grace Kelly, que morreu em 28 de maio: ‘Minha filha precisava de UTI. Disseram que não tinha vaga’‘‘Ela saiu daqui de casa falando, andando, brincando. Estava em perfeita saúde. Não esperava que pudesse morrer. Perder uma filha é uma dor terrível, a família toda está revoltada.’’
O desabafo é de Lídia Aparecida dos Santos Soares, 25 anos, mãe de Grace Kelly dos Santos Soares, que morreu em 28 de maio, aos 5 anos de idade, poucas horas depois de chegar ao Hospital Universitário (HU). Antes de ir para o HU, no entanto, Grace passou oito dias internada no Hospital da Zona Sul (HZS) em estado grave e, segundo a família, sem receber tratamento adequado.
Lídia Soares lembra que há cerca de duas semanas Grace Kelly pegou uma ‘‘gripe fraca’’ e, poucos dias depois, notou um pequeno inchaço no rosto da menina. A mãe a levou para o HZS, onde Grace foi internada. Três dias depois, o quadro clínico complicou e a criança precisou ser transferida para uma Unidade de Terapia Intensiva (UTI).
A direção do Hospital da Zona Sul imediatamente tentou vaga em outros hospitais da Cidade, o que acabou ocorrendo somente em 28 de maio, o dia em que ela morreu.
Lídia Soares conta: ‘‘Minha filha precisava de UTI e no Hospital da Zona Sul não tinha. Implorei, supliquei para que levassem para outro hospital. Disseram que não tinha vaga. Todo mundo estava preocupado com aquela demora. Depois que ela estava muito mal não adiantava mais transferir. Não dava tempo de fazer mais nada’’.
O pai de Grace Kelly, José Luiz Soares, diz que, durante os três primeiros dias em que a filha ficou no Hospital da Zona Sul, o problema não parecia tão grave. ‘‘Ela falava com a gente, ia ao banheiro sozinha’’, conta Soares. ‘‘Mas no quarto dia já nem me reconhecia mais. Quando conseguimos a vaga na UTI era tarde demais.’’ Além da falta de UTI, o pai acredita também que houve demora no diagnóstico.
O diretor clínico do HZS, Sidney Girotto, explica que Grace apresentava um quadro de grave de broncopneumonia, inflamação no rim e septicemia (infecção generalizada). Por isso, ela precisaria ser transferida para uma UTI com urgência. A demora na transferência, segundo o diretor, não deu chances de recuperação para a menina.
As declarações foram dadas por Girotto anteontem. Ele admitiu que a menina havia morrido por falta de vaga em UTI e alertou para o perigo que corriam outros pacientes que estavam internados no HZS e que necessitavam, urgentemente, de atendimento especializado. Ontem, dois pacientes foram transferidos (ver texto nesta página).
Revoltados com o incidente, os pais de Grace estudam a possibilidade de entrar com ação judicial para reparar a morte da filha. Eles aguardam apenas uma orientação profissional para saber contra quem vão ingressar na Justiça - médico, hospital ou Estado.

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