Uma menina de rua de Mandaguari (33 km a leste de Maringá), de 13 anos de idade, provocou o disparo de um revólver calibre 38 no final da madrugada de ontem em Sarandi (7 km a leste de Maringá) e matou o frentista Vaílton Gutierrez Machado, 29 anos, casado, pai de um garoto de 3 anos. O tiro acertou o coração de Gutierrez, que trabalhava há seis anos no Posto Garbugio, na entrada de Sarandi.
S.M.F., de 13 anos, que disse à Folha ter sido a autora do disparo, estava acompanhada da irmã V.L.M.F., 12 anos, e da amiga E.E.E.G., 17 anos. As três foram detidas em flagrante pela Polícia Militar e autuadas por latrocínio. Segundo o escrivão Rubens Jacovós, houve intenção de roubo, pois a menor teria aberto uma gaveta e de lá retirado a arma que acabou matando o frentista.
As três menores vão ficar detidas na cadeia de Sarandi pelos próximos 45 dias, à disposição da Promotoria de Justiça, e deverão ser encaminhadas para internação em serviço especializado de recuperação de menores infratores em Curitiba. Até lá, elas estarão sob a proteção do Conselho Tutelar de Sarandi e não poderão ser fotografadas; somente responderão a perguntas de jornalistas se quiserem e se um membro do Conselho Tutelar estiver presente.
O tempo em que elas deverão cumprir pena em Curitiba vai depender da sentença do juiz de Sarandi. Fonte da polícia local adiantou que elas deverão ser absolvidas da culpa de latrocínio; a Justiça deverá considerar o disparo como acidental.
O frentista Gutierrez foi velado durante o dia e a noite de ontem em sua casa, na Rua Machado de Assis, no Jardim Independência, em Sarandi. O enterro será às 9 horas de hoje no Cemitério Municipal de Maringá.
S. garantiu que não teve a intenção de roubar e nem de matar o frentista: ‘‘Na verdade, nós moramos nas ruas. Chegamos domingo em Sarandi e passamos o dia pedindo comida e zanzando por aí. Chegamos no posto às 5h30, pensando em tomar banho e ir embora para Mandaguari de carona. Pedimos banho mas o frentista disse que não tinha banheiro e nem toalha, mas indicou uma torneira onde a gente poderia se lavar. Vi a guarita aberta e entrei lá, abri e gaveta e vi a arma, pensei que fosse de brinquedo. O frentista pediu para eu largar a arma, e ainda pensando que era de brinquedo a segurei com as duas mãos com força e apontei para ele, que estava a dois metros de distância, mas não apertei o gatilho, que já estava armado, para trás (o cão da arma). Era uma arma muito pesada. Não sei como disparou. O frentista, antes de cair, ainda disse para mim: ‘Viu o que você fez?’ Quando vi o frentista caído corri para o outro lado da rua, peguei o telefone e eu mesma chamei a polícia’’. A irmã e a amiga confirmaram que foi S. quem chamou a polícia.
Segundo a polícia, logo depois do disparo, as três começaram a correr pela BR-376, nas proximidades do posto, chorando. Foi o choro delas que chamou a atenção dos soldados da PM que foram atender ao chamado.
S., V. e E. perambulam pelas ruas das cidades da região há quatro anos, sempre juntas. As três têm passagens pelos conselhos tutelares de Maringá, Sarandi, Marialva, Mandaguaçu e Mandaguari por uso de drogas, vadiagem e prostituição. V. garante que só fumou maconha uma vez; já S. diz que a pedra de crack lhe tira a fome e a maconha ‘‘dá uma fome danada’’. Elas só retornam à casa dos pais em Mandaguari de vez em quando. V. diz que a casa onde mora, com os outros cinco irmãos, o pai e a mãe é ‘‘boa, de tijolos’’.
Os pais de S. e V. já foram avisados, mas até o final da tarde de ontem ainda não haviam comparecido à delegacia. Os pais de E., a mais velha e a mais tímida das amigas, estão separados e ainda não foram encontrados. As três foram colocadas numa cela com dois beliches, na companhia de mais três mulheres.

mockup