Um anjinho da guarda muito eficiente, socorro médico competente e principalmente uma grande vontade de viver. A conjunção desses fatores foi o que salvou a vida de Daniela Aparecida Dias da Silva, 11 anos. A menina teve o crânio atravessado por uma bala perdida no dia 16 deste mês - durante troca de tiros entre policiais militares e criminosos na Zona Norte de Londrina -, e ontem deixou o Hospital Infantil andando, sorrindo e agradecendo por ter sido salva.
O neurocirurgião Fahd Haddad foi o responsável pelo atendimento à menina e disse que ela teve muita sorte. Mostrando algumas imagens feitas a mão, o médico explicou que o disparo entrou da esquerda para a direita, atingiu a parte frontal de cima do crânio da menina (na altura do início do couro cabeludo), destroçou ossos e provocou uma pequena perda de massa encefálica. Para se ter uma idéia da gravidade do quadro, o ferimento tinha cerca de 10 centímetros de comprimento, aproximadamente cinco de largura e pelo menos três de profundidade. ''Se atingisse dois a três centímetros para trás, poderia acarretar sequelas graves como paralisia de parte do corpo'', comparou o especialista.
O médico esclareceu que as lesões cerebrais não resultaram em maiores problemas pelo fator idade e por ela ser saudável. ''Ela perdeu massa encefálica mas, por ser criança, o cérebro pode compensar isso'', comentou. Além disso, continuou Haddad, o suporte médico dispensado desde logo após o incidente e durante os dias em que permaneceu na Unidade de Terapia Intensiva (UTI) também foram fundamentais para que a vida da menina fosse salva.
Segundo Haddad, a alta médica no entanto não quer dizer ausência de riscos. Daniela terá acompanhamento ambulatorial e psicológico e, dentro de 30 ou 40 dias, será submetida à nova cirurgia para colocação de uma prótese permanente que irá substituir o osso do crânio que foi perdido. Depois disso, será avaliada periodicamente por pelo menos mais um ano.
Ao contrário da imagem triste de quando ela chegou ao Hospital Infantil levada por uma ambulância, cercada por aparelhos e inconsciente, ontem Daniela apareceu sorridente. De roupinhas e um chapéu rosas, a menina acenou para as câmeras e confessou que está com saudades de voltar para casa, rever os três irmãos e retomar os estudos, o que deve demorar algumas semanas. Fez questão de abraçar o médico. Ao lado da mãe, a lavradora Maria da Graças Dias da Silva, agradeceu a todos que rezaram e torceram por sua melhora.
Tão radiante quanto a filha, Maria das Graças não reclamou e não apontou culpados. Bastava para ela estar voltando para a casa abraçada a Daniela com a sensação de que o pior havia passado. ''(Ela se salvou) Porque Deus existe e esteve sempre do lado dela, naquele momento, guiando depois a mão dos médicos. Agora, é preciso só ter cuidado com ela e continuar acreditando em Deus'', disse, brincando que vai ser difícil fazer com que a filha faça repouso, não suba nas árvores, não corra atrás dos cachorros...
Enquanto isso, persiste a dúvida sobre se o tiro que atingiu Daniela foi disparado pelos policiais militares ou pelos criminosos que tentavam se esconder em um cafezal no sítio onde a família da menina mora na Zona Norte. A garota, os irmãos e primos brincavam no quintal numa tarde de domingo quando se viram no meio de um tiroteio. Daniela foi atingida na porta de casa, quando tentava se proteger dos disparos. Um inquérito policial foi instaurado para apurar o caso.

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