Mendigo morre na porta de hospital
PUBLICAÇÃO
sábado, 24 de maio de 1997
Da Redação 
O mendigo José Sazrassoff, 34 anos, cujo corpo foi encontrado no último dia 17 perto de um quiosque, em frente ao Hospital Universitário (HU), morreu sem atendimento médico-hospitalar. Um grupo de meninas, que saía da escola na hora do almoço, conseguiu providenciar socorro para o mendigo. Mas não foi possível salvar a vida dele.
Ele foi levado até o pronto socorro do hospital pelo Transporte Centralizado de Emergência (TEC) por volta das 13 horas e teve sua ficha preenchida, recebendo uma senha para aguardar o atendimento. Mas, segundo o diretor-superintendente do HU, Cláudio Camacho, sumiu antes de poder ser atendido.
Estávamos com o pronto socorro lotado e como ele estava andando e não apresentava sintomas de risco de vida, foi pedido para que aguardasse sua vez, explicou. O mendigo foi chamado para atendimento por volta das 14 horas e Camacho garante que os funcionários chegaram a procurar por ele em todo o pátio interno do hospital. Por volta das 17 horas, os funcionários foram avisados de que havia um homem caído e passando mal perto do quiosque, na frente do hospital.
José Sazrassoff foi então socorrido e levado para dentro do hospital, mas já tinha sofrido parada cardíaca e não reagiu à tentativa de reanimação. Para Camacho, o fato de Sazrassoff ter saído do pronto socorro mostra que ele não queria o atendimento e isenta o hospital de qualquer responsabilidade. O diretor comenta ainda que a triagem feita pelos funcionários do HU é eficiente e quando há evidências ou dúvidas sobre a gravidade do estado do doente ele é atendido imediatamente.
O ideal seria que todos pudessem ter o pronto atendimento, mas a demanda é muito grande e não permite essa agilidade, diz Camacho. Na certidão de óbito feita pela Administração de Cemitérios e Serviços Funerários (Acesf) consta que Sazrassoff morreu de parada cardíaca e respiratória em decorrência do alcoolismo. Ele foi enterrado no cemitério da Saudade (zona norte).
A irmã do mendigo, a dona-de-casa Analice Sazrassoff, de 39 anos, moradora do conjunto Maria Cecília (zona norte), acredita na versão do HU. Ele sofreu muito, não aceitava ajuda de ninguém, nem da família. Todas as vezes em que tentamos levá-lo para tratamento ele fugia. Analice, no entanto, culpa o poder público e a própria comunidade pelo descaso com que são tratados os indigentes. As pessoas precisam ser mais sensíveis ao problema, oferecendo ajuda imediata em casos como esse. Mesmo porque nenhuma família está livre de enfrentar a situação de ter um ente querido nessa situação.
Sazrassoff nem sempre foi o mendigo encontrado pelas meninas. Analice conta que ele era um vendedor autônomo eficiente e bem-sucedido. Ninguém sabe ao certo porque ele começou a beber e a viver na rua, mas tudo aconteceu depois de sua separação, há cerca de cinco anos. A gente acredita que foi por decepção amorosa.
(Célia Baroni)


