Memórias entre quatro paredes
PUBLICAÇÃO
quarta-feira, 29 de maio de 2013
Micaela Orikasa<br>Reportagem Local 
"Amigo é feito casa que se faz aos poucos e com paciência pra durar pra sempre/ Mas é preciso ter muito tijolo e terra/ preparar reboco, construir tramelas/Usar a sapiência de um joão-de-barro/que constrói com arte a sua residência". A música "Amigo é casa", eternizado pela cantora Zélia Duncan, faz um trocadilho com a amizade e define em poucas palavras a relação afetiva que um lar constrói sob seus moradores.
A casa dos avós, o terreno adquirido com muito suor, a infância dos filhos, o desenvolvimento da cidade. Todas essas histórias, por mais banais que possam parecer, denotam o modo de viver escolhido por muitas famílias londrinenses, que ao longo dos anos preservam as memórias afetivas que elas representam em suas vidas.
Tanto é que em uma das únicas residências restantes na Rua São Jerônimo, na região central, a tradição de uma família de japoneses é perceptível nas janelas, portas, pendentes e até nas cores da fachada. Na parede da sala, um quadro revela a planta original da construção datada em 1951. "Ele construiu pensando em toda a família que antigamente morava em um sítio e que hoje é o Jardim Santos Dumont. Com o progresso da cidade, acabamos mudando para esta casa", conta Sunao Ohara, de 72 anos.
Filho de Haruo Ohara (1909-1999), um dos mais notáveis fotógrafos de nossa história e que documentou com grande sensibilidade boa parte da imigração japonesa no Paraná e em Londrina, Sunao conta que até hoje a residência preserva os moldes originais, com inclusive 10 quartos. "Meu pai teve nove filhos, mas os avós, um tio e uma bisavó moravam com a gente. A casa realmente tinha que ser grande", diz.
Quando a família se mudou para o centro, os imóveis ao redor eram todos residenciais, bem diferente dos dias atuais, pois são praticamente todos comerciais. Com o falecimento dos pais, a casa se tornou um patrimônio para os filhos. Sunao morou 17 anos fora do Brasil, mas a casa durante este período foi habitada por familiares.
"Ela ficou apenas dois anos alugada para um comerciante, mas logo quando retornamos ao Brasil decidimos ficar nela. Hoje, não pensamos em mudar daqui. Essa casa nos traz lembranças boas, principalmente sobre a infância dos meus filhos", conta a esposa Fumiko Muramoto, mãe de três filhos e avó de dois netos.
Luta
Na zona norte da cidade, o mesmo valor sentimental é revelado pela assistente social Michelle Terencianni Nagay, de 34 anos. Apesar de não ter preservado a estrutura original da casa construída por seus pais, Michelle fez questão de manter intactos os azulejos da cozinha. "Meu pai ficou todo entusiasmado quando comprou e eu não quero me desfazer", conta.
A história de Michelle com sua morada no Conjunto João Paz começou quando os pais conquistaram a tão sonhada residência. Ela, com apenas um ano, acompanhou todo o desenvolvimento da região e, quando jovem, passou por uma grande decepção. "Meus pais construíram uma casa no Jardim Pinheiros e nos mudamos. Eu não consegui me adaptar no novo endereço. Mesmo estando vazia, eu fazia questão de ir na antiga casa para limpá-la, como se fosse minha", lembra Michelle, que teve uma crise de tristeza quando o pai anunciou a venda do imóvel.
"Eu chorava muito e não conseguia me desligar. Na mesma época, casei e engravidei e fiz meu pai desfazer o contrato de venda. Eu queria morar ali. Viver ali. Prezo muito pela história dos meus pais com essa casa. Foi uma luta deles", completa.
Hoje, Michelle vive na residência com dois filhos e o marido, mesmo tendo a oportunidade de morar em um apartamento. "Foi uma escolha minha. Cada cantinho é uma lembrança. Apesar de ser algo material, diz muito respeito à minha criação e educação. Essa casa para mim tem um significado de persistência, luta e a realização de um sonho", declara.
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