Memórias do primeiro carteiro
Quando chegou em Londrina, no início de 1934, o aposentado Joaquim Diogo da Silva, 90 anos, ou simplesmente ''seo Nenê'' como é mais conhecido, foi trabalhar como estafeta (carteiro) no percurso da linha de trem entre Ourinhos e Jatai (atual Jataizinho). Anteontem, quase 70 anos depois de amassar muito barro por essas bandas, o pioneiro e outros mais de 300 companheiros de jornada foram homenageados com a medalha do ''Sesquicentenário do Paraná'', que marca os 150 anos de emancipação política do Estado.
''Londrina é como uma placa, que era enferrujada por cima mas de ouro por baixo, que o vento virou com o tempo'', elogiou o pioneiro, que além de ter sido o primeiro carteiro do vilarejo do início dos anos 30, também foi o primeiro funcionário público municipal a se aposentar em 1957. Seu Nenê contou que tinha 20 anos quando aportou em Londrina, em janeiro de 1934, com a mãe e outros oito irmãos mais novos o pai havia morrido cerca de seis anos antes , todos vindos de Tambaú, no interior de São Paulo.
Logo conseguiu uma colocação nos Correios e Telégrafos, onde trabalhou por dez anos. Em 1945, ''entrou na prefeitura'' onde exerceu a função de fiscal e foi administrador do matadouro municipal, que ficava no terreno onde hoje funciona o Hospital Universitário (Zona Leste). ''A cidade tinha só algumas casinhas esparramadas. Para andar nas ruas, tinha que amarrar correntes nos sapatos para não cair'', recordou.
A diversão dos primeiros moradores, segundo o pioneiro, se resumia aos dois clubes que havia na cidade. O Redondo, frequentado pelos funcionários da Companhia de Terras Norte do Paraná, e o Quadrado, ''que era de todos''. ''Todo mundo tomava uma bebida danada e, quando chegava certa hora, todos se misturavam no Redondo.'' Mas não foi nos bailes que ele conheceu a esposa, Eutália Nunes da Silva, hoje com 84 anos, já que o pai da moça não aceitava tal comportamento. ''Nós nos conhecemos passeando pela rua'', revelou.
Depois do casamento vieram os filhos quatro ao todo e, em 1958, após aposentadoria, passou a se dedicar também a uma outra paixão. ''Depois que me aposentei fui criar passarinho, com licença do Ibama (Instituto Brasileiro de Meio Ambiente)'', garantiu. O viveiro nos fundos de casa, que chegou a ter mais de 200 animais, conta atualmente com pouco mais de 20. ''Hoje em dia isso é proibido'', argumentou.
Sobre os amigos daqueles tempos, ele tem poucas notícias. ''Todo mundo acabou se separando'', lamentou. O reumatismo também o impede de andar pelo centro da cidade com a frequência que gostaria. ''Nunca imaginava que a cidade chegasse ao que é hoje e acho que nem a turma da Companhia.'' Pelas tantas memórias, seo Nenê se considera parte da história de Londrina: ''Olho para esse mundo dessa cidade e vejo que ajudei um pouquinho'', finalizou o pioneiro.





