Quando os anos tiverem corrido e os dias vividos no Ciaadi de Londrina fizerem parte do passado, talvez os meninos que lá estiveram ainda tragam, por muito tempo na memória, o cárcere.
Conforme rezam os padrões, os meninos precisam ser bons. Quase todos eles sabem que é preciso fazer as lições, não tirar nota vermelha, orar para o anjo da guarda, comer verdura, não tomar gelado quando o nariz está escorrendo, não arrotar na mesa, andar calçado, manter as unhas curtas, respeitar pai e mãe e não ser amigo do alheio. Quem não segue as regras peca e está sujeito a expiar suas penas no inferno.
Alguns meninos não escapam das tentações e caem em desgraça ainda em tenra idade. Esses meninos vivem o inferno em vida. Como fazer lições de casa se muitas vezes não há casa para tais meninos? Faltam aos meninos as verduras e a mesa, tesoura de cortar unha, caderno para as lições, escolas que os compreenda, remédios para os resfriados. Sobram aos meninos o inferno das ruas, as tentações de se desejar as coisas alheias. E eles caem, sendo mais cedo ou mais tarde apreendidos e enviados à expiação de suas culpas.
Quando ganham novamente as ruas, o inferno volta a se apresentar aos garotos, cheio de tentações. O céu, para os meninos fadados a não serem bons, fica cada vez mais distante. (Maranúbia Barbosa)

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