Memórias de um jardineiro centenário
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sexta-feira, 05 de maio de 2006
Adriana Ito<br> Reportagem Local 
Quanto mais vezes se conta a mesma história, mais ela vai se enriquecendo em detalhes e características muitas vezes inverídicas. Não se trata de mentir, mas de reinterpretar o mesmo fato. Quando se tem mais de cem anos, então, as histórias já estão cheias de incongruências o que as torna ainda mais interessantes.
A trajetória de vida de seu Joaquim Maria de Souza é uma dessas histórias tão boas de se ouvir que a gente acaba relevando alguns detalhes. Este jardineiro aposentado nasceu em Minas Gerais no século retrasado, em 1899. Quando criança, levou uma enxadada na cabeça que entrou até a massa encefálica, e por conta disso jamais aprendeu a ler. Os miolos da gente são azuis que nem anil, comenta, ao relembrar o episódio.
Mais tarde, já homem formado, teve mais de vinte mulheres a seus pés, todas querendo casar-se com ele. Mas escolheu Maria, de apenas 14 anos, para ser sua esposa. Durante a cerimônia de casamento, porém, algumas jovens interessadas nele apareceram na igreja e causaram confusão. Na saída ainda veio uma moça querendo pegar na minha mão! Falei pra ela que agora não dava mais, que já estava feito.
Maria morreu há quatro anos, mas é um assunto recorrente. Ela roçava que nem homem, cortava lenha, era muito caprichosa e trabalhadora, elogia, para logo em seguida estender o olhar para a rua, em silêncio. Ela estava destinada a ser minha, revela em outro
momento.
De Minas, o casal partiu para Porecatu e depois veio para Londrina, cidade onde Joaquim iniciou seu ofício de jardineiro. Autodidata, foi aprimorando seu trabalho sozinho. Encontrou clientes fiéis e logo estava cuidando dos jardins de um bairro inteiro, quase todos por indicação. O serviço era tanto que a renda permitiu inclusive que seo Joaquim construísse a casa que abrigaria seus cinco filhos, onde mora até hoje.
Foi em Londrina também que ele viveu seu dia de caçador. Matei uma onça na avenida Paraná. Ela estava em cima da árvore, eu mirei a espingarda e atirei. Na época era tudo mato ao redor, conta.
Enquanto a repórter esteve na casa, netos e bisnetos iam e vinham, em visitas que se repetem todos os domingos. Ele é o máximo. Conversa com a gente, dá conselho, tem a mente aberta. Gosta de estar no meio dos jovens, declara uma neta. A última façanha do jardineiro foi apostar corrida com os bisnetos.
Porém, ousadias como esta estão cada vez mais difíceis. Joaquim, que parou de trabalhar com mais de 80 anos, está com problemas de visão e de audição, além de já sentir alguma dificuldade para se locomover. Apesar disso, sua saúde ainda é invejável: não tem problemas de pressão, colesterol nem outros males típicos da idade. Ele ensina aos mais jovens que, para se viver bastante, é preciso muito trabalho e uma boa alimentação. Mas, questionado sobre o porquê de ter chegado aos 106 anos, apenas sentencia: A gente morre quando chega o dia.


