Memórias de quem pegou Brasília no colo
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sexta-feira, 21 de abril de 2006
Vanessa Navarro<br>Reportagem Local 
O ex-caminhoneiro Luiz Aparecido Aranda, 71 anos, cantou parabéns em silêncio ontem. Não era aniversário de nenhum familiar ou amigo, mas de uma velha conhecida que completou 46 anos: Brasília. Morador da Vila Brasil, na Área Central de Londrina, o aposentado testemunhou a construção da capital do País em suas incontáveis viagens para levar madeira e lajes ao Planalto Central.
A primeira vez que pisei em Brasília foi em 1957, quando levei madeira de Ponta Grossa e descarreguei no local onde seria erguido o Palácio da Alvorada, recorda Aranda, que foi caminhoneiro por mais de meio século antes de se aposentar, no ano passado. Naquela época era tudo mato. Em pouco tempo, a gente começou a ver obra para tudo quanto era lado, e tanta gente, mas tanta gente trabalhando, que parecia que o Brasil todo tinha ido para lá, exagera.
A suntuosidade que hoje é marca de Brasília aos olhos do mundo todo já estava impressa na construção da capital, como se percebe nos relatos de Aranda. Aquilo era uma loucura. Achei que o sonho do Juscelino Kubitschek, que todos considerávamos louco, nunca se tornaria real. Só comecei a acreditar quando percebi o quanto de dinheiro estava sendo investido ali. Se Brasília parasse, o Brasil estaria falido, sentencia.
Mas não parou. A exemplo de milhares de colegas, o caminhoneiro tinha cada vez mais encomendas a transportar para o Distrito Federal, viajando até duas vezes por mês. Só não ia com mais freqüência porque as estradas não ajudavam, eram praticamente todas de terra. Levava 10 dias para chegar de Londrina até lá, conta. Um dia, Aranda teve a oportunidade de relatar as condições das estradas a quem mais tinha poder para mudá-las. Isso mesmo: ele conversou com JK, o ex-presidente que anda tão na moda.
Eu e outros caminhoneiros estávamos descarregando madeira quando ele se aproximou e perguntou como estavam as estradas. Não escondi a verdade. Ele disse que em cinco anos estariam todas asfaltadas. E cumpriu, garante. O aposentado, que chegou a achar que a construção de Brasília era desperdício de dinheiro, ficou maravilhado com o resultado e virou fã do ex-presidente. Hoje, diz que o admira ainda mais em comparação com os políticos da atualidade. Presidentes como os de hoje em dia não seriam capazes de fazer o que ele fez. Provavelmente roubariam todo o dinheiro da obra, constata, com pesar.
Com três filhos, três netos e quatro bisnetos, Aranda se deleita contando histórias de Brasília como testemunha ocular. Recentemente, diz que teve o prazer de ver seu caminhão entre as imagens de meados do século utilizadas pela minissérie de tevê JK. Depois de 20 anos sem pisar na cidade que pegou no colo, ele pretende rever a capital durante uma excursão marcada para junho. Vou reviver aquele conto de fadas, antecipa.


