MEMÓRIAS - Aposentadoria somente aos 92 anos
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sexta-feira, 09 de fevereiro de 2018
Pedro Marconi<br>Reportagem Local 

Jaguapitã - Viúvo e com uma filha, após a segunda esposa morrer em um acidente automobilístico, Célio Nóbrega, na época com 50 anos, resolveu buscar uma nova companheira. Para isso, anunciou na Folha de Londrina que precisava de uma governanta. A procura foi intensa de candidatas interessadas, mas um empecilho apareceu: a mãe. "Estava sozinho e resolvi fazer isso. Quando as moças chegavam em casa minha mãe 'enxotava' todas", diz.
Uma professora da fazenda então quis ajudar e mostrou a foto de uma parente, que vivia em Santo André (SP). Após ver a foto utilizando um monóculo (objeto em que se olha por uma lente para ver a foto ampliada ao fundo), ele se interessou. Mandou a mulher buscá-la, entretanto a resposta não foi boa. "Não o conhecia e queria que fosse para o Paraná? De maneira alguma. Dei o recado que não era mercadoria e que se quisesse me ver tinha que ser pessoalmente indo até minha casa", recorda Aparecida Luzia Ramos Nóbrega, 78.
Na mesma semana, Nóbrega foi para a cidade e com muito custo convenceu aquela que seria seu grande amor a viver no Norte do Paraná. "No começo vim por conta da minha filha e da dele, que eram pequenas. Deixei isso muito claro. Minha cunhada reprovou, na época, e disse que ele tinha idade para ser meu avô. Vim assim mesmo em um fusca verde e era um terrão só isso aqui. Com a convivência virou amor", destaca Aparecida, enquanto o marido, com quem já está casada há 51 anos, cochicha. "Ela não esquece de nada!", diverte-se.
VIDA ATIVA
Cerca de 30 anos depois de trabalhar na fazenda, decidiu se transferir para Rolândia (Região Metropolitana de Londrina) junto com a família. Cinco anos mais tarde, voltou à fazenda Maragojipe. Foi contabilista e gerente, ocupando-se com os serviços por mais de três décadas, até atingir os 92 anos, quando resolveu descansar. "Era aposentado pelo INSS (Instituto Nacional do Seguro Social) desde os 50 anos e até já fui homenageado como o mais antigo beneficiário da região de Londrina certa vez."
Se por um lado o trabalho diminuiu, a rotina não. Quem pensa que a vida do senhor de 101 anos é parada está enganado. Nóbrega busca, e gosta, de realizar várias atividades e passear. "Ano passado o levamos em uma noite do tango e ele até chorou, porque é 'pé de valsa'. Também fomos em uma apresentação no Filo (Festival Internacional de Londrina), no Ouro Verde, que ele aproveitou muito. Adora praia e se deixar ele quer ir lá remar", elenca a filha Célia.
LEITURA
Outra atividade que faz parte da rotina do idoso é a leitura. Nos fundos da casa onde mora com a filha mais nova e a esposa, localizada na fazenda Nova Maragojipe, passa os dias acompanhando a Folha de Londrina. Em uma mesa de madeira antiga, que dá vista para suas flores e plantas favoritas, soma o conhecimento a uma xícara de café preto. "Tenho que ficar informado do que acontece e por isso diariamente peço para alguém buscar", relata.
São-paulino, adora as matérias de esporte, em especial as do seu time de coração e do Londrina. "Política eu não sou fã não, as coisas no Brasil estão muito difíceis, então isso me entristece. Mas, por outro lado, vejo tudo do caderno de Economia", afirma. Do passado, lembra dos tempos em que o mato e os pés cafés tomavam conta de todo o interior. Ia de cavalo para Londrina quando precisava resolver questões da fazenda. Comprou um carro, um Opala 1982, que dirigiu até quando pôde, deixando-o na garagem, como uma relíquia.
Espontâneo e carregando na pele as marcas do tempo, parece não fazer isso com a alma, que continua jovem. Apesar da dificuldade para andar, pisa com firmeza, demonstrando que a estrada da vida foi bem mais difícil de vencer. O segredo para chegar aos 101 anos tem na 'ponta da língua' e não é relacionado com a alimentação saudável. "O tempo passa para todos. Tem horas que paro e me pergunto como aguentei tanto. E no final é fácil, só não morrer antes", gargalha, à espera de seu café.


