A energia elétrica chegou à localidade de Rodeio em 1982, lembra Santina Pereira Leal, mulher de Frederico Leal. Com a chegada da energia, vieram novos moradores para a região, trazendo a televisão, sítios de lazer e antenas parabólicas. O progresso também trouxe o bordel da cidade, e motoqueiros e jipes passando pela Estrada do Anhaia.
A velha casa onde mora a mãe de Diquinho, ao lado do Engenho de Aguardente, ostenta uma enorme parabólica. Nos fundos da moradia, depois do tanque de lavar roupa, correm as águas cristalinas que sempre movimentaram as pás da roda d’água. Tábuas encaixadas entre canaletas de pedras desviam o rumo das águas, que não passam mais pelo interior do engenho.
Duas das filhas de Frederico conversam animadamente sobre como Rodeio era no tempo em que lá moravam. Elas lembram dos canaviais nas encostas dos morros e de que iam para a escola, a mais de 12 quilômetros, de bicicleta, todos os dias. Uma delas, enquanto conversa, coloca calda e doce de laranja azeda em três vidros de compota. As laranjas azedas, antes de irem para o fogão, foram colocadas num saco e permaneceram três dias imersas nas águas correntes do rio próximo. É para perder o azedume, explica Dona Santina.
Os irmãos estudavam na escola técnica à noite e faziam o mesmo trajeto de bicicleta. Lembram também de que o trabalho no engenho era duro e que mal dava para o gasto - e isso fez com que procurassem uma nova vida.
No começo tudo era à base de lampião, depois meu pai construiu um gerador, diz a mais nova das irmãs. É nesta hora que aparece, vindo de trás do paiol com dornas pequenas (tonéis cortados e em pé), que serviam para o envelhecimento da cachaça produzida, uma figura de cabelos brancos desgrenhados. Um homem alto, altivo, de sandália. Era Jaime Caetano da Silva, 73, louco, segundo Dona Santina, e apenas ‘‘variado’’ das idéias, segundo a filha mais nova de Frederico, que fez questão de frisar que o homem não era violento, como se pensa, de modo geral, dos loucos. Dona Santina diz que seu marido recolheu Jaime para dentro do seu quintal e ofereceu-lhe um paiol para ficar. Desde esse dia Jaime vive com os Leal. Ele aproximou-se, foi até o tanque, lavou as mãos e desapareceu sem dizer uma palavra.
A filha mais nova de Frederico, que hoje mora em Curitiba, lembra com saudades do tempo em que havia muita plantação de cana-de-açúcar na região. O canavial dava trabalho e muitas famílias vinham morar perto dos engenhos, que só paravam de funcionar nas tardes de domingo. Com a folga vinham os encontros com os meninos em bailes. A diversão era a dança. ‘‘Não é como agora’’, diz, ‘‘que os rapazes vão aos bailes para encher a cara e nem dançam mais’’. (P.J.S.)

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