Segundo a direção da escola, antes os alunos eram todos moradores da Vila Casoni; hoje eles vêm de vários bairros
Segundo a direção da escola, antes os alunos eram todos moradores da Vila Casoni; hoje eles vêm de vários bairros | Foto: Reprodução



Situado em um dos bairros mais tradicionais e antigos de Londrina, o Colégio Estadual Doutor Willie Davids se transformou, assim como toda a região. Não só os caminhos de terra, e depois os paralelepípedos, mudaram, mas também o interior da escola, que nos últimos anos vêm sentindo a diminuição no número de alunos.

Para professores e direção, a principal justificativa está no local em que o colégio está. "Estamos em um lugar em que, assim como bairro, os seus habitantes envelheceram. Antes as crianças e adolescentes que estudavam aqui eram todas da Vila Casoni. Hoje já vem estudantes de várias outras partes. Isto acaba interferindo na questão do vínculo que se cria", explica a atual diretora, Patrícia Bettini Lamberti.

Atualmente, 510 alunos estão matriculados na escola. Até alguns anos atrás eram 1,2 mil. "Tínhamos filas para fazer matrículas. As pessoas vinham de madrugada para garantir o lugar na fila e não ficar sem a vaga para o filho", memora a funcionária e ex-aluna Maria do Prazer da Silva. Com a diminuição, a quantidade de salas oferecidas também acabou passando por alterações. Antes lotado no período noturno, o Willie Davids agora só possui duas turmas à noite. "Até a reunião dos pais já não reúne tanta gente mais", lamenta Lamberti.

Torcendo para que o Willie Davids celebre mais aniversários, aqueles que fazem parte da sua história esperam que poder público e novas gerações de estudantes cuidam deste patrimônio de Londrina. "O que esperamos é que o País mude. O pensamento de quem comanda interfere na escola. Várias foram as transformações do prédio, por exemplo, porém o principal é o mesmo de décadas. Também esperamos o sucesso dos nossos alunos, porque isso vai renovando a escola", pontua a ex-professora Tania Maria Capucho.

Alunos fazem resgate histórico
Para celebrar os 70 anos do Colégio Estadual Doutor Willie Davids, todos os alunos realizaram durante todo o primeiro semestre de 2017 o resgate histórico da instituição e da Vila Casoni. O resultado de tudo que foi feito ficará exposto nesta terça-feira (1º), para toda a comunidade, das 8h às 21h, na própria escola. Foram produzidas maquetes, apresentando o primeiro prédio e o atual, além de visitas no museu e entrevistas com ex-alunos, ex-professores e ex-diretores, que originou um vídeo.

Segundo Mariana Siene Juliane, o trabalho foi importante para aproximar os alunos da escola, incentivando a criação de afeto e vínculos. "Isso buscou mostrar para eles o que mudou e o que queremos para o futuro. Também foi interessante porque os alunos descobriram várias histórias interessantes, como o porquê da Vila Casoni não possuir uma praça e uma igreja católica. No caso, isto está ligado ao fato do Jorge Casoni não ser católico", elenca.

Aluno do colégio, Matheus Duintiliano, 15, gostou do projeto. "Saímos nas ruas do bairro para conversar com os moradores. Vimos as casas antigas e as falas de como era tudo isso antes. Até chegamos a fazer desenhos de vários locais para colocarmos em exposição. Foi tudo gratificante e proveitoso", acredita. "É importante porque temos vários alunos novos e eles precisam conhecer mais sobre o lugar onde estão", diz a estudante Estefany Santos, 12.

Anualmente, a instituição realiza a comemoração de seu aniversário com os alunos, como forma de valorizar sua história. Concomitante a isso, ainda são desenvolvidos trabalhos culturais, em que cada ano um tema é escolhido. Neste foi os 70 anos. "Para eles vivenciarem um pouco de como era, colocamos, nos intervalos, músicas que remetiam a uma década da escola. Quando foi a de 40 e 50 teve reclamação de alguns alunos, mas muitos elogios de funcionários antigos", diverte-se Juliane. (P.M.)

Vila Casoni, no coração de Londrina
Era início dos anos 1930 quando Domingos Casoni comprou uma área da Companhia de Terras Norte do Paraná para montar um granja na recém-criada Londrina. A falta de dinheiro, porém, impediu o pioneiro de montar seu próprio negócio. A opção foi ouvir o conselho do prefeito Willie David: dividir o terreno e vendê-lo em pequenos lotes urbanos. Dava início ali a Vila Casoni.

Fundada em 1936, e próxima à linha férrea, a pacata vila dividia espaço com os pés de café e o movimento dos colonizadores, que buscavam conhecer o município da terra vermelha. Apesar da localização, tinha características rurais. As ruas não possuíam números ou nomes, e água e luz não eram encontrados, o que só aconteceu depois de Londrina ser elevada à condição de município.

Ligado à história da cidade, a vila se transformou em bairro aos poucos. Os cafés foram dando lugar às casas de madeira e as estreitas ruas abriram espaço para comerciantes, principalmente bares para embalar a vida boêmia da época. O local também foi constituído a partir da vinda de migrantes nacionais, em especial os de origem europeia e oriental, provenientes de São Paulo e Minas Gerais.

Sete décadas depois, a Vila Casoni reúne mais de oito mil habitantes e conserva em suas vias o que o tempo pareceu descansar, alternado com o progresso. É um pedaço do passado no coração de Londrina, com suas casas de peroba-rosa e telhas de cerâmica francesa. Em uma volta rápida, entre os carros apressados, ainda é possível encontrar os moradores mais antigos varrendo as calçadas. Para eles é como se o tempo fosse um sopro que não consegue levar o que a história guardou. (P.M.)

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