Meio século de ensino à língua japonesa
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domingo, 06 de setembro de 2009
Caroline Vicentini<br>Reportagem Local 
Quando, em 1959, o casal de imigrantes Masahiro, 76 anos, e Mariko Sakai, 74, começou a dar aulas para crianças descendentes de japoneses nos salões da igreja evangélica Holliness não imaginava que a iniciativa se transformaria na Escola Megumi (graça de Deus), referência em educação infantil para nikkeis e que este ano completa o seu cinquentenário.
O casal relembra que os primeiros anos foram difíceis. Problemas financeiros, adaptação a nova cidade, mudanças constantes de endereço e a poeira foram algumas das dificuldades enfrentadas pelos senseis (professores). ''Lecionávamos o dia todo e ainda tínhamos duas crianças pequenas. Minha esposa enchia o varal de fraldas, mas no final do dia estavam todas sujas por causa do poeirão'', relembra Masahiro.
Incentivador da leitura entre os alunos, o professor recorda-se que enfrentava, de bicicleta, o chão de terra batida para encomendar na livraria Paraná os mangás (histórias em quadrinhos) que as crianças liam avidamente. ''Às vezes não tinha dinheiro e o dono deixava que pagasse depois'', confessa.
A escola começou com seis alunos na idade de 3 a 6 anos, e logo depois houve o interesse dos irmãos mais velhos dessas crianças na aprendizagem do idioma japonês. Após um ano, em 1960, a escola já contava com 44 alunos. O casal Nelson e Nilza Okano estudou na Megumi na década de 60. Embora recordem de Masahiro como um professor rígido, que, eventualmete recorria a uma varinha de bambu para chamar a atenção dos indisciplinados, ressaltam que ele e a esposa sempre procuraram fazer com que os alunos se sentissem bem, tratando-os individualmente, e fazendo da escola um ambiente familiar e agradável.
''Em uma época em que era incomum as crianças frequentarem o jardim de infância, tivemos o privilégio de começar a ser alfabetizados. Pássavamos o dia todo na escola e nos divertíamos muito porque nossas aulas tinham música, teatro, desenho, dança'', relembra o engenheiro. O casal salienta que os professores sempre incentivaram a leitura, contando lendas japonesas, abastecendo a biblioteca com novos mangás e o kamishibai (teatro em papel). ''Devo o meu gosto pela leitura às atividades desenvolvidas pelos senseis na minha infância'', reconhece Nilza.
Limpeza das salas
O material didático e os móveis utilizados pelos alunos era confeccionados pelo próprio Masahiro. A pequena mesa cor-de-rosa de aproximadamente 50 centímetros, ideia da famíla, foi criada para se tornar também uma cadeira. Costume no Japão, os alunos eram os responsáveis pela limpeza das salas. O ex-aluno Roberto Takeda recorda que as crianças transformavam a tarefa em mais um momento de brincadeira. ''Um sentava no pano e o outro a puxava'', rememora.
Takeda também destaca que o sensei sempre incentivou a prática esportiva, reservando alguns minutos antes da aula para os exercícios de alongamento, além de deixar que a criançada jogasse bola queimada e brincasse no parquinho. Um evento esportivo marcante na memória dos ex-alunos era o undokai (gincana familiar). ''O undokai acontecia uma vez por ano. Reuníamos nossas famílias para participar das atividades e fazer piquenique no terreno de chão batido'', conta.


