Meio Ambiente Finalmente, a escada de peixes no Laranjinha
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quinta-feira, 26 de outubro de 2006
Widson Schwartz<br> Especial para a Folha 
Ribeirão do Pinhal - Passados sete anos, desde que pediram a intervenção do Ministério Público para atenuar o impacto ambiental causado pela barragem no Rio Laranjinha, em Ribeirão do Pinhal (a 97 quilômetros de Jacarezinho, Norte Pioneiro), ecologistas vêem que ficou pronta a escada para a subida de peixes, que custou mais de R$ 90 mil ao Governo do Estado. É o primeiro resultado concreto - literalmente - em termos de preservação do rio. Agora, a promotora da comarca, Kele Cristiani Bahena, busca a reposição da mata ciliar, pelo compromisso de proprietários rurais num projeto que abrange também o Rio das Cinzas, esperando que haja adesões em outros municípios, pela interferência do Ministério Público.
Mas o Laranjinha é atingido também pela poluição industrial, que ambientalistas atribuem a uma destilaria de álcool em Ibaiti. Quando eles [da destilaria] soltam o vinhoto, a água fica verde e os peixes põem a cabeça para fora, afirma um atento morador ao lado da represa.
Habituado a esperar muito para que as ações em prol da preservação ambiental produzam efeitos, Gilmar Cândido considera relevante a construção da escada. Em abril de 1999, ele era vereador em Ibaiti, quando levou oficialmente ao conhecimento da promotora de Justiça da Comarca, Maria Cecília Pereira, a preocupação de ambientalistas com a represa, há mais de 40 anos sem serventia, mas atrapalhando a piracema (subida dos peixes rumo às nascentes na época da desova). A barragem fez parte de uma hidrelétrica que nunca funcionou.
Construída pelo Governo do Estado entre 1956 e 1960, a Usina da Corredeira foi um atentado ao rio, atingido por explosões de dinamite. Os engenheiros davam um tiro [explosão] no túnel e três no rio, para matar peixes. Tinha muito peixe, afirmou, mais tarde, o contemporâneo Tibagy Santiago de Sales à Folha (19.1.1983). O trecho ideal para a hidrelétrica era outro, mas decidiram construí-la abaixo, onde foi preciso abrir túnel em rocha, ficou sabendo Sales, que vendeu uma parcela na margem direita exigida pelo projeto. Pronta a usina e reguladas as comportas, houve a inundação de um setor e perceberam que o projeto, do modo que fora executado, jamais permitiria o funcionamento.
A hidrelétrica custou, também, a vida do prefeito interino Antônio Silveira Pinto, o popular Crioulo. Durante a construção, ao atravessar a ponte abaixo da barragem, ele pisou numa extremidade de uma tábua solta e caiu no leito, em cima de pedras, e morreu. Foi em 1956, informa-se na prefeitura.
Com a nascente em Ventania, o Rio do Peixe ou Laranjinha recebe, até o trecho onde está a represa, 12 dos 23 afluentes, entre os quais o Ribeirão do Pinhal, que dá nome à cidade. Em 1999, a solicitação dos ambientalistas de Ibaiti foi remetida à Comarca de Ribeirão do Pinhal, por onde o Instituto Ambiental do Paraná (IAP) recebeu a notificação, que resultou na construção da escada, concluída este ano e ainda não entregue oficialmente.
Pegamos pesado, diz a promotora Kele Bahena, que se tem pautado, em muito, pelas causas ambientais, ela própria reconhece. Lembra que os ecologistas sugeriam a remoção da barragem, mas o IAP ponderou que, passado tanto tempo, criara-se um novo ecossistema e a destruição causaria dano maior, em comparação ao cerceamento da piracema. Optou-se pela construção da escada, na margem esquerda, mas o que parecia uma solução de curto prazo virou promessa por tempo indeterminado. Segundo a promotora, em face das peculiaridades, o projeto demorou e quando ficou pronto, desapareceu, foi perdido na mudança de governo [de Jayme Lerner para Roberto Requião]. Só por muita insistência fizeram outro projeto e a construção foi iniciada quando se cogitava ingressar com ação civil pública contra o Estado.
Há que se impor, agora, a vigilância permanente, para impedir que infratores tirem proveito da escada e capturem peixes durante a piracema, recomenda a promotora. O prefeito, Moacir Lataliza (PMDB), concorda e promete contratar pessoal. E já se fala em inauguração festiva após a eleição.


