A curitibana M.E.F., 58 anos, é um exemplo típico de um grave problema que a cada ano toma proporções maiores: a contaminação de mulheres casadas que acreditavam viver longe do risco de contrair o vírus HIV. Ela soube que tinha a doença há um ano, depois de ser internada no hospital de São José dos Pinhais, na Região Metropolitana de Curitiba, com várias complicações de saúde.
‘‘Eu não comia mais e estava muito magra, mas achava que era problema de bexiga. Quando cheguei ao hospital, o médico percebeu que eu tinha a doença, mas não me falou nada’’, diz. Com base em vários exames, a confirmação veio três dias depois. M.E.F. conta que ficou desesperada, gritou e chorou quando recebeu a notícia. Sem acreditar, ela fez novo exame em outro hospital de Curitiba e novamente o resultado confirmava o que não queria entender.
M.E.F. foi contaminada pelo marido, que não sabia que era soropositivo. A notícia ele recebeu depois que a mulher fez os exames. Indignada com a situação, M.E.F. se separou do companheiro, que mora hoje em Porto Alegre. O ex-marido é caminhoneiro, o que facilitava o contato com outras mulheres, na opinião dela. A mulher conta que na época de casada ficava preocupada, mas nunca exigiu que seu marido usasse camisinha.
Sem muitas informações, ela lembra que ouvia falar na Aids, mas que nunca pensou que seria uma de suas vítimas. Doente, M.E.F. ficou três meses internada num hospital de Curitiba, onde viu muitas pessoas morrer por causa da doença. Além da Aids, ela precisou tratar de sequelas provocadas por um derrame que teve logo em seguida. Com o tratamento e o apoio da família ela se recuperou, mas nunca mais voltou a trabalhar como empregada doméstica.
Hoje, M.E.F. mora no Solar do Girassol, uma casa de apoio que atua com recursos da igreja católica, da prefeitura e doações da comunidade. Além dela, a casa atende mais 12 pessoas consideradas excluídas, que não têm família ou recursos para pagar o tratamento. Ali, ela ajuda a lavar a roupa dos colegas e na limpeza da casa. M.E.F. conta que está no Solar por opção própria, já que na entidade ela encontra o sossego que não tem na casa da filha ou da irmã.
M.E.F. tenta se conformar com a doença, mas lembra que, muitas vezes, fecha os olhos e chega a pensar que não é verdade que está contaminada. ‘‘Agora não adianta chorar. Mas acho que ainda vou ver a descoberta de um remédio que cure a doença. Daí vou saber que poderei viver durante muitos anos’’, diz.

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