Medo pega carona no ônibus da linha 210
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sexta-feira, 27 de abril de 2007
Luciano Augusto<br> Reportagem Local 
Quem toma todo começo de noite o ônibus da linha 210 com destino ao Jardim União da Vitória (Zona Sul de Londrina), sabe que a viagem não será tranquila. Quando o coletivo se aproxima do bairro é literalmente tomado de assalto por crianças e adolescentes que impõem o medo aos passageiros. Por enquanto, as agressões têm se restringido a ameaças verbais, que amedrontam moral e psicologicamente. Mas será que essas agressões machucam menos que as físicas?
O temor vivido pelos passageiros da linha 210 foi revelado à FOLHA por uma denúncia anônima de uma moradora do Jardim Nova Esperança, bairro vizinho ao União da Vitória. A mulher, que trabalha no centro e usa o transporte coletivo todo dia, contou que quem toma este ônibus a noite tem que suportar calado a balburdia e as ameaças verbais que um grupo de adolescentes do União e bairros próximos faz. ''Essas gangues ameaçam e incomodam'', reclamou. Ela disse que há situações em que os adolescentes obrigam passageiros a saírem de seus bancos para eles ocuparem. A FOLHA tentou falar com usuários no próprio ônibus mas não teve sucesso. No Terminal Central, diante dos olhares atentos de um grupo de adolescentes, também ninguém quis dar entrevista.
Na noite da última terca-feira, a reportagem da FOLHA enfrentou o trajeto e comprovou o vandalismo provocado por um grupo. Assim que o ônibus saiu da rodovia João Carlos da Rocha Loures e entrou na rua dos Cozinheiros para cumprir o itinerário pelas ruas do União da Vitória, um grupo de oito crianças e adolescentes (aparentando entre 10 e 14 anos) se dependurou nas portas traseiras, forçando a entrada. Ao motorista não sobrou outra alternativa que não a de parar e deixar que todos entrassem sem pagar. ''Se não parar, eles mandam pedras nas janelas'', explicou. Um ônibus que fez o horário anterior ao usado pela reportagem teve um vidro quebrado por uma pedra logo que entrou no bairro. ''A gente tem que falar com jeito com eles, tentar ser amigo, porque se chamar a atenção, complica'', resignou-se o condutor, que a partir das 19h segue viagem sozinho porque os cobradores encerram o expediente.
Dentro do coletivo, os meninos subiam nos bancos, batiam nas janelas, enfrentavam uns aos outros, gritavam palavrões e intimidavam os poucos passageiros - idosos que voltavam ou seguiam para a igreja, homens e mulheres que retornavam para casa ou estavam indo trabalhar, estudantes. Também obrigaram o motorista a parar em pontos outros que não aqueles estabelecidos. Vinham e iam no corredor, pulando a catraca eletrônica. O ônibus estava dominado pelo grupo e os passageiros eram os ''penetras''.
Nem a possível presença da Polícia Militar chega a desencorajar atitudes agressivas. Nesta semana, as viaturas intensificaram as rondas pelo bairro à noite porque na segunda-feira uma adolescente que pegou ''carona'' do lado de fora do ônibus caiu e feriu-se ao ser atingida por uma roda traseira. Ainda assim, os mais novos se submetiam a liderança dos mais velhos, numa hierarquia que futuramente pode ser ainda mais maléfica.


