Medo invade os pátios e as salas de aula
Érika Pelegrino
De Londrina
Ao ser repreendido pela professora, um garoto de oito anos saca um punhal com a intenção de matá-la. Por causa de um rapaz, duas garotas se pegam de tapas. Armada com um pente, a mãe de uma estudante vai à escola para tentar atacar uma aluna que teria brigado com sua filha. O detalhe: o pente tem dentes de metal. Usando um líquido não identificado pela direção da escola, um aluno quase deixa cego um colega de sala. Um adolescente, de 16 anos, chega alcoolizado na escola e afirma que sua vontade é de destruir tudo.
Estas não são cenas de ficção. Fazem parte do dia-a-dia de muitas escolas de Londrina, principalmente públicas. No 5º Batalhão da Polícia Militar de Londrina, há um verdadeiro arsenal de armas recolhidas nas escolas: soco inglês, bombas caseiras, pentes de cabelo, facas, armas de brinquedos idênticas às reais, correntes, muchaco, bola de borracha com alfinetes, entre outras.
Tão assustadora quanto a quantidade de armas apreendida pela PM nos estabelecimentos de ensino, é medonha a agressividade demonstrada recentemente por um grupo de estudantes, que destruiu uma sala de aula durante o intervalo, na frente de policiais que estavam no pátio do colégio. Drogas, prostituição, brigas de gangues também fazem parte desta crônica da violência. A Polícia Militar garante que o problema não está ligado ao nível social, mas sim, à quantidade de alunos. Quanto maior a escola, maior a violência, conforme a ótica da PM.
A situação é tão alarmante que os estabelecimentos de ensino estão procurando, cada um a sua maneira, resolver o problema. Uma das alternativas encontradas foi a ronda da patrulha escolar. Policiais visitam as escolas nos períodos da noite, manhã e tarde, na tantativa de inibir a violência.
O método é contestado por alguns educadores, que afirmam que a presença de policiais nas escolas gera mais violência. A promotora da Vara da Infância e da Juventude, Édina Maria de Paula Silva, afirma que a implantação da ronda da patrulha escolar, no ano passado, não diminuiu a violência nas escolas. (ver texto nesta página)
Alguns alunos chegam a reclamar da forma de ação da polícia. Um estudante relata que ele e dois amigos foram humihados por policiais no caminho da escola. Eles teriam sido abordados por seis policiais que procuravam por uma pessoa que o grupo desconhecia. Os policiais jogaram nossos materiais no chão e uma arma, esperando que a pegássemos. Fomos humilhados por sermos negros.
A Folha acompanhou os soldados Rosalvo Soto de Amorim e Sandro Márcio de Oliveira, que faziam a ronda nas escolas da zona sul de Londrina. Se por um lado os alunos reclamam da ação policial, por outro, segundo os policiais, muitos adolescentes e até crianças enfrentam e chegam a ameçar os patrulheiros.
Em um colégio da periferia da cidade, localizado perto de uma favela e de dois pontos de drogas, os soldados dizem que a viatura já foi recebida a pedradas. Este colégio é dominado por traficantes, afirma um dos soldados. No mesmo estabelecimento de ensino, um outro episódio marcou os soldados. Enquanto estavam no pátio do colégio, alunos de idade avançada começaram a quebrar todas as cadeiras da sala de aula.
A diretora-auxiliar do Colégio Estadual Aníbal Feijó (zona sul de Londrina), Elizabete Mezzarroba, informa que o problema de alcoolismo também é comum. Na análise dela, muitos estudantes têm um sentimento de revolta muito grande e são conduzidos pela ausência do sentido de preservação da vida. Eles querem destruir tudo. Não entendem que a escola é deles, analisa.
Os integrantes da patrulha escolar reafirmam que quanto maior a quantidade de alunos e quanto mais pobre a região em que a escola está localizada, maiores são os problemas. O soldado Rosalvo Soto de Amorim apenas retifica que alguns colégios da região central também apresentam sérios problemas com gangues.
A diretora Elizabete Mezzarroba não concorda. Ela menciona exemplos de crianças da escola que dirige, que vêm de bairros muito pobres, como União da Vitória, Franciscato, Jamile Dequech, Perobal, entre outros. São crianças bem educadas e disciplinadas, afirma.
Elizabete conta o caso de dois irmãos de 11 e 8 anos, que mesmo ganhando da escola os ingressos para um show de palhaços, não aceitaram justificando que a mãe sempre os orientou a não fazer dívidas, pois não teriam como pagar depois. Tivemos que simular um sorteio para essas crianças acreditarem que o ingresso era dado.
Outra aluna, segundo a diretora, contou na escola que em sua casa não havia água há 13 dias. Sua mãe lavava roupa dos vizinhos em troca do banho dos filhos. Apesar da pobreza absoluta, as crianças que protagonizam estas tragédias não apresentam problemas de comportamento na escola, garante a diretora.
Elizabete Mezarroba entende a violência na escola como um problema de má educação dentro das famílias. E é com esta preocupação que a coordenadora da 1ª a 4ª séries do Aníbal Feijó, Neusa de Oliveira, tenta desenvolver em seus alunos noções que muitas vezes teriam que ser trabalhadas em casa.
Tenho fé que estes alunos serão adolescentes que respeitem mais a vida, com mais sentimento de preservação. Por isso invisto na formação deles, afirma, esperançosa.Cenas que parecem ser extraídas de filmes de ficção acontecem dentro dos muros dos estabelecimentos de ensino
Josoé de CarvalhoJosoé de CarvalhoCesar AugustoFORMA DE PREVENÇÃOPresença de viatura e soldados da PM em escola de Londrina: patrulha escolar é contestada, mas necessária; diretora-auxiliar Elizabete Mezzarroba, do Colégio Aníbal Feijó (abaixo, à esquerda); à direita, orientação sobre segurança, na sala de aulaJosoé de CarvalhoNeusa de Oliveira: Tenho fé que estes alunos serão adolescentes que respeitem mais a vida





