Umuarama – São pouco mais de 8 horas da manhã. O dia que mal acabou de nascer escurece quase de repente. As luzes das ruas em Umuarama se acendem. Parece que já vai anoitecer de novo. ‘‘Meu Deus, vai começar tudo outra vez’’, apavora-se dona Maria. O susto com o último temporal ainda nem passou e outra tempestade se aproxima, ameaçadora. Rosário entre as mãos, dona Maria reza fervorosamente. Reza pelos filhos no trabalho, os netos na escola, os parentes e amigos onde quer que estejam. Reza mais ainda por quem estiver na rua, no tempo. ‘‘Que cheguem em casa logo, meu Deus’’.
A chuva e o vento começam e dona Maria anda de um lado para o outro, aflita. Já desligou todos os aparelhos elétricos, porque vai faltar energia e ‘‘pode queimar tudo’’. E as árvores em frente da casa? Um tronco rachou durante o último temporal e pode cair de vez agora. Pela direção do vento, se cair virá para cima da casa. ‘‘Meu Deus, por que não liguei logo para a prefeitura vir cortar este galho rachado?’’, arrepende-se.
Uma espiada no fundo do quintal e ela prevê mais uma tragédia. Sem escoamento, a água da chuva vai formando um piscinão de lama no fundo do quintal. O muro frágil, de placas de cimento, pode cair a qualquer momento. Ela imagina a casa do vizinho alagada e enlameada. ‘‘Ai, Meu Deus’’. A dor de estômago aumenta.
Dona Maria tem trauma de chuva e vento. Lembra da infância quando chegou no Paraná e dos vendavais que invariavelmente destelhavam sua casa. Construída em caráter provisório, a casa não tinha proteção nas laterais do telhado. Era ventar forte e as telhas iam para o espaço. Embora qualquer tempo feio a deixe com dor de estômago, o medo de dona Maria desta vez é compreensível. Nestes dias em que a mãe natureza anda tão furiosa, muita gente tem compartilhado do mesmo pavor.
A chuva agora parece um dilúvio. São Pedro não economia e manda água. ‘‘Meu Deus, acho que a gente andou reclamando demais da seca’’, constata. Mas o vento desta vez foi mais fraco. Nem derrubou o galho rachado. O muro nos fundos do quintal também resistiu. A chuva vai diminuindo e, aos poucos, dona Maria se acalma. Tudo fica bem de novo. Mas, se depois da tempestade vem a bonança, para dona Maria vem sempre uma dúvida junto. ‘‘Será que eu não usei demais o santo nome de Deus em vão?’’

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