Medo de ficar incomunicável
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segunda-feira, 08 de junho de 2009
Mie Francine Chiba<br> Especial para a FOLHA 
Para muitos, telefone celular já é equipamento de sobrevivência. Assim como outras tecnologias que surgiram para facilitar o dia a dia, esse aparelho possibilita encontrar e ser encontrado em qualquer lugar, 24 horas por dia. Apenas oito dígitos nos levam a falar com quem precisamos, em qualquer horário do dia.
Uma vez acostumados com as facilidades e a segurança que estas tecnologias de comunicação nos proporcionam, ficamos a um passo de nos tornar dependentes delas. Daí um comportamento típico da sociedade contemporânea: o medo de ficar incomunicável. Especialistas já registraram casos em que esse medo - porque o celular foi esquecido em algum lugar, ficou sem bateria ou sem sinal - causou sentimentos característicos de uma fobia, ou seja, um medo irracional acompanhado de sensação intensa de ansiedade. Mesmo recente, esse comportamento já recebeu um nome: nomofobia.
''Nomo'' vem do inglês ''no-mobile'', que significa ''sem celular''. ''Nomofobia é um termo que designa o desconforto ou sentimentos intensos de ansiedade que acometem uma pessoa pela incapacidade de comunicação por meio de celulares e/ou computadores'', conceitua a psicóloga Nione Torres, mestre em Psicologia Clínica na área de Análise do Comportamento pela Pontifícia Universidade Católica (PUC) de Campinas, que diz já tratar de pacientes com comportamento parecido ao da nomofobia em seu consultório.
O termo também caiu no conhecimento popular. Na internet, usuários do Orkut já se reuniram em oito comunidades que tratam da síndrome, totalizando quase 200 pessoas da rede que afirmam ter a nomofobia. Uma delas é a técnica em aparelhos auditivos Tânia Raquel Daniel, que veio de Curitiba há seis meses a trabalho. Trouxe amigos e familiares só no aparelho celular, gravados na agenda de telefones. Ela conta que chegou à Rodoviária de Londrina ainda de madrugada, e quando já estava na casa onde seria hospedada, se deu conta da falta do celular. Junto à tristeza por ter deixado as pessoas queridas na Capital, veio o desespero de não poder se comunicar e estar incomunicável.
''Eu cheguei a chorar, quase entrei em depressão.'' Depois desse episódio, comprou dois aparelhos, para, no caso de perder um, ter o outro. ''E olha que nem tem muitas pessoas que me ligam. Só namorado e família. É só para sentir a segurança de ter um celular, mesmo'', completa. Além disso, o MSN fica conectado o dia inteiro, no trabalho e à noite, por meio do aparelho celular.
Na rotina de trabalho as tecnologias modernas também são sinônimo de conforto. No caso de Carlos Antônio Amaral Monteiro, que passa o dia inteiro fechando negócios no setor de café, os seus dois telefones celulares não saem dos bolsos. ''Um tem o chip de Maringá e o outro de Londrina'', explica o corretor, que negocia com pessoas das duas cidades usando ainda o MSN, programa de bate-papo online, e o velho conhecido e-mail que, na versão de Monteiro, verifica se tem mensagens novas sozinho, de tempo em tempo.
Já a estudante Érika Stephanie Gurreri de Souza conversa com os amigos do colégio onde estuda pelo MSN e troca recados pela rede social da internet, o também famoso Orkut. Tanto que para estudar, afirma, precisa desligar o computador para não cair na tentação de bater papo virtual com os amigos internautas. E mesmo com o computador conectado à internet, usa o telefone celular em casa. ''Às vezes estou conversando no MSN e com o telefone celular em um dos ouvidos'', conta.
Agenda, mensagens de texto, despertador, câmera, acesso à internet, mp3 player. ''É preciso que se diga o quanto o telefone celular é repleto de recursos. Portanto, torna-se evidente o fato de que ao tê-lo em mãos surgirá, naturalmente, uma sensação acentuada de segurança e, digamos assim, conforto emocional. Logo, se ficarmos sem ele a sensação de estarmos desconectados com o mundo nos assolará, gerando sentimentos desagradáveis em função da insegurança que se instala'', observa a psicóloga.


