Vômito, falta de ar, debilidade e muita dor fazem parte da sintomatologia dos doentes de câncer. Uma das drogas mais eficazes, recomendada inclusive pela Organização Mundial de Saúde, é a morfina, com 95% de resultados positivos. O problema é que muitos pacientes podem estar sofrendo à toa. Movidos pelo preconceito, médicos e governantes estariam impedindo o acesso dos doentes ao medicamento. O alerta é do professor Robert Twycross, da Universidade de Oxford, na Inglaterra, que até o próximo dia 5 estará no Hospital Erasto Gaetner, em Curitiba, participando de cursos e debates sobre medicina paliativa ou ‘‘confortadora’’.
‘‘Muitos médicos acham que ela pode causar dependência nos doentes’’, explica Twycross. ‘‘Mas isso não é verdade. O mesmo acontece com os governos. Existe uma política internacional que os obriga a proibir o uso da morfina, como forma de evitar a propagação da droga. Só que, com isso, o acesso a ela fica restrito até mesmo aos médicos e pacientes, que não podem utilizá-la’’.
O médico, que também é um dos peritos da OMS em tratamento de dor e cuidados paliativos, esclarece que sua missão no Brasil e na América do Sul é justamente a de encorajar o desenvolvimento dos cuidados paliativos para o doente de câncer. Entre eles, o próprio uso da morfina e das aspirinas, aliado ao suporte psicológico do paciente e da família. ‘‘Existem pacientes em várias partes do mundo que estão recebendo tratamentos caríssimos para o câncer, mas que poderiam estar muito melhor com o uso da medicina paliativa’’, garante. ‘‘O problema é que muitas pessoas que desenvolvem a doença não podem ser curadas e, mais cedo, ou mais tarde, vão precisar do tratamento contra a dor. É necessário que haja um balanço entre os tratamentos paliativos, e o tratamento do câncer propriamente dito’’.
De acordo com o Hospital Erasto Gaetner 70% dos pacientes de câncer acabam morrendo, mesmo recebendo tratamento quimioterápico. Situação que se agrava ainda mais, diante das dificuldades de se controlar as dores provocadas pelos tumores. ‘‘A gente estuda para prescrever a morfina, sabe dos resultados, mas quando vai receitá-la o paciente não tem dinheiro para comprar’’, lamenta o oncologista Roberto Bettega, coordenador do Serviço de Medicina Paliativa do Erasto Gaetner. ‘‘O mínimo que queremos é tratar pelo menos da dor do paciente’’.

mockup