Rio de Janeiro Não é otimista a expectativa para a evolução da dengue no Brasil. Especialistas médicos que participaram do Simpósio Nacional sobre Dengue, no último sábado, no Rio de Janeiro, acreditam que a doença passará a ser endêmica e daqui a 20 ou 30 anos passará a atingir, e matar, principalmente crianças.
Antes da doença se tornar um dos principais motivos de mortalidade infantil no país, novas epidemias deverão atingir a população. Uma provável circulação do vírus tipo 4, que já apareceu no Amapá, em 1982, e desapareceu, deverá provocar epidemias com casos cada vez mais graves de dengue hemorrágica e até de síndrome de choque da dengue. ''A tendência da dengue é ficar mais grave, em 2000 o vírus tipo 3 já entrou com maior virulência, e o sorotipo 4 vai entrar, é uma questão de tempo'', afirmou o presidente da sociedade clínica médica do Estado do Rio de Janeiro, Luiz José de Souza.
Para o médico Marcos Boulos, titular de infectologia do Hospital de Clínicas de São Paulo, é grande a possibilidade do Brasil vir a se igualar a alguns países da Ásia. Ele explicou que nos países onde a dengue existe há muito tempo, principalmente no sudeste asiático, toda a população já teve os quatro sorotipos de dengue, e aí a doença pára de atingir o adulto e passa a atingir crianças. ''Quando a criança nasce, ela tem os anticorpos maternos, e quando é picada pela primeira vez pelo mosquito, o caso é de dengue hemorrágica, já que os anticorpos não são suficientes para protegê-la'', explicou Boulos. Segundo a professora Sônia Maris Zagne, da Universidade Federal Fluminense, em países como a Tailândia, Filipinas e Vietnã, a dengue figura entre a 7 e 8 causa de mortalidade infantil.
Boulos informou que as perspectivas mais otimistas para o surgimento de uma vacina é para daqui a 10 anos, e mesmo assim não será a vacina que vai diminuir a incidência da doença. Ele explicou que a vacina precisa imunizar simultaneamente os quatro tipos de vírus, para que em uma possível contaminação, a pessoa não corra o risco de ter dengue hemorrágica. ''Já existem vários estudos para uma vacina, mas ainda não se conseguiu imunização para o tipo 3 do vírus. Por causa da necessidade de várias doses, do alto custo, e da pouca duração, tudo isso nos leva a crer que a vacina não é uma solução para o problema da dengue, pode ser apenas solução para viajantes ou para poucas pessoas que não são da comunidade'', avaliou.
Esta é a primeira de uma série de reportagens sobre o Simpósio Nacional de Dengue. Na edição de amanhã, o assunto da reportagem será sobre a capacidade de adaptação do mosquito aedes Aegypti, transmissor da dengue. A repórter viajou ao Rio de Janeiro a convite da Aventis Pharma.

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