Cardiologistas da França, entre eles o médico paranaense Márcio Scorsin, anunciaram ontem, em Paris, a realização do primeiro transplante em seres humanos de células musculares da perna para a área do coração. A cirurgia ainda está em fase de testes, mas pode representar um avanço para tratar pessoas que tiveram um infarto provocando a necrose de parte do coração. O objetivo da técnica é que as células injetadas se reproduzam fazendo com que a zona ‘‘morta’’ volte a ter vida.
O transplante foi realizado há três meses em um francês de 68 anos, que sofreu um infarto há cinco anos, evoluindo para uma situação de insuficiência cardíaca. Além da injeção de células na zona necrosada, o paciente também recebeu duas pontes de coronária no lado esquerdo do coração. Segundo Scorsin, o homem passa bem e a região cardíaca que estava morta já está se mexendo. ‘‘Estudos mostram que a parte morta já tem tecido vivo. A função do coração também melhorou bastante, mas ainda não podemos afirmar o quanto dessa melhora deve-se à colocação das pontes e quanto à injeção das células’’, diz.
Cauteloso, ele alerta que qualquer comemoração só pode ser feita depois de concluídos os estudos. Há seis anos, Scorsin está trabalhando junto ao Departamento de Cardiologia do Hospital Bichat, sob a direção de Philippe Menasche, onde coordena o projeto sobre Transplante Celular. Nesse tempo, a nova técnica foi testada em animais.
A primeira fase dos testes em humanos prevê a cirurgia de mais oito pacientes. Em 2001 inicia-se a segunda fase, quando entre 100 a 200 pacientes de diversas localidades serão submetidos à cirurgia. ‘‘Só então vamos poder fazer qualquer prognóstico sobre a aplicação desse tipo de tratamento’’, diz.
O transplante entre células tem o objetivo de aumentar a quantidade de células contráteis num miocárdio insuficiente. A princípio, segundo o médico, a cirurgia é indicada para pacientes que sofreram infarto, que evoluiu para a morte da zona afetada. Ou seja, a técnica não substitui outras já existentes, já que os métodos tradicionais tratam de áreas com insuficiência cardíaca, mas ainda vivas.
A técnica consiste em retirar células, chamadas de mioblastos, do lado de fora da coxa do paciente. As células são tiradas dos músculos esqueléticos – que ficam presos aos ossos – e são responsáveis pela regeneração desse tecido. As células são cultivadas por 15 dias em laboratório para que se multipliquem. No transplante são injetados 800 milhões de mioblastos em vários pontos da região morta do coração.

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