Médicos fazem defesa do parto normal
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domingo, 23 de novembro de 1997
Adriana De Cunto Londrina 
Mário CésarVia naturalO médico e professor universitário Hélcio Soares, que quer ações diretas para favorecer parto normal: O número de cesarianas cresce em todo o mundo, mas o Brasil continua sendo o campeãoO Conselho Regional de Medicina do Paraná resolveu intensificar, no último mês, as campanhas de incentivo ao parto normal. Médicos, pacientes e hospitais estarão recebendo informações sobre as vantagens do parto via vaginal, tanto para as mulheres quanto para os bebês. A decisão de adotar uma estratégia mais ostensiva foi tomada porque, nos últimos anos, o índice de realização de cesarianas no Estado não diminuiu como o CRM esperava.
Médico e professor da Universidade Federal do Paraná, Hélcio Bertolozzi Soares acredita que as ações mais diretas do CRM devem favorecer o parto normal. Ele esteve em Londrina na sexta-feira, dando palestras na 4ª Jornada do Serviço de Ginecologia e Obstetrícia do HE, realizada até ontem com a presença de médicos de várias cidades do Paraná.
Na palestra Vias de parto - por que tanta discussão?, Hélcio Soares comentou a resolução recente do CRM/Paraná que obriga os médicos a fazer o partograma, procedimento que consiste no registro de todas as etapas do trabalho de parto. Neste documento, os obstetras têm que registrar as frequências cardíacas, evolução da dilatação, entre outras informações.
Com o partograma, que Hélcio Soares chama de radiografia do parto, o médico tem mais segurança para comprovar que assistiu a paciente de forma adequada e poderá se defender das pressões familiares, uma das maiores incentivadoras da cesariana. No hora do parto, segundo Soares, muitas famílias intimidam o médico para realizar a operação, e ameaçam processar judicialmente o obstetra caso alguma coisa errada aconteça durante o parto normal.
O medo da dor do parto, o desconhecimento da fisiologia, a pressão familiar e até mesmo a falta de um bom relacionamento médico-paciente são fatores que contribuem para o aumento da incidência de cesarianas. Fatores que já estão interferindo até nas estatísticas mundiais. O número de cesarianas cresce em todo o mundo, diz Soares. Mas o Brasil continua sendo o campeão.
A cesariana, afirma o ginecologista, não é boa nem para a mãe e nem para o bebê e só deve ser realizada em caso de indicação médica. Para as mulheres que desejam fazer o parto normal, ele aconselha seguir corretamente o pré-natal e receber orientação multidisciplinar.
A campanha pelo parto normal ocorre, entre outras coisas, para tentar diminuir os índices de morte materna no Paraná, número que chega a 94 mulheres mortas para cada 100 mil nascidos vivos. É um índice bastante elevado se comparado ao Canadá, que não chega a cinco mortes. Cuba tem 26 mulheres mortas para cada 100 mil nascidos vivos e no Chile são 30.
No Brasil, segundo Soares, a média é de 146 mulheres mortas para cada 100 mil nascidos vivos e no Nordeste há regiões em que este número alcança 200 mortes. O Rio Grande do Sul, de acordo com o professor da UFPR, é o Estado brasileiro em que o índice de morte materna é menor. Depois vem o Paraná.
As principais causas de morte materna são a hipertensão arterial, hemorragia, infecções e cardiopatia. A hemorragia e infecção são causas diretamente relacionadas com a cesariana, procedimento realizado em 45% das gestantes paranaenses. Em algumas cidades do Paraná o índice de cesariana chega a 92%.
Hélcio Soares mostra o perfil típico da gestante que morre no Paraná. Idade entre 25 e 27 anos, com mais de três filhos, 1º grau incompleto, renda menor que dois salários mínimos e que passou por poucas consultas médicas durante o pré-natal. Noventa e nove por cento destas mulheres morrem nos hospitais, afirma o médico.
Apesar do número de gestantes que morrem devido a complicações no parto ainda ser grande, Soares diz que o índice de morte materna vem diminuindo gradativamente no Paraná. O que se espera para os próximos 3 e 4 anos é reduzir o índice pela metade.


