Médicos e enfermeira denunciados por morte
PUBLICAÇÃO
quarta-feira, 17 de novembro de 2004
Luciano Augusto<br> Reportagem Local 
A empregada doméstica Ana Fidelix Ramos ainda guarda com carinho o retrato da filha Izabel Cristina Fidelix Ramos, 29 anos, que em 28 de março do ano passado morreu de complicações decorrentes de dengue hemorrágica no Hospital da Zona Sul de Londrina (HZS). No final da última semana, um ano e oito meses após morte, a Promotoria de Defesa da Saúde Pública denunciou por homicídio culposo sem intenção de matar quatro médicos e uma enfermeira que atenderam a vítima. O Ministério Público concluiu que os cinco profissionais teriam agido de forma negligente e sem a perícia que suas funções exigiam.
O promotor Paulo Tavares comentou que a apuração dos fatos demandou tempo porque era preciso colher provas de que o atendimento prestado à Izabel, que era auxiliar de enfermagem, não foi o adequado. Entre os denunciados, um dos médicos trabalhava na Unidade Básica de Saúde (UBS) do Parque das Indústrias (Zona Sul); os outros três e a enfermeira atuavam no HZS.
Em sua argumentação, o promotor destaca que o atendimento ''constitui-se numa sucessão de condutas culposas que, no seu conjunto, contribuíram para a morte da vítima''. Tavares investigou detalhes contidos nos prontuários médicos, no Manual sobre Dengue do Ministério da Saúde e em pareceres técnicos de especialistas na doença no município. Ele observou na petição que Londrina vivia uma epidemia de dengue sem precedentes, sendo que de janeiro a março do ano passado já haviam 1.466 casos confirmados da doença e pelo menos 7,4 mil notificações no mesmo período.
Conforme o promotor, Izabel deu entrada na UBS do bairro onde morava na manhã de 24 de março, mas apesar de apresentar um quadro suspeito de dengue a doença só seria diagnosticada quatro dias depois. Mesmo depois de identificada a doença e os sintomas se agravarem, a paciente não teria recebido o tratamento adequado. Ao ser internada em estado grave no Hospital da Zona Sul depois de ter sido avaliada por dois médicos, o promotor relata que ''o que se viu dali em diante foi uma série de atos de extrema incompetência e de várias omissões''. Apenas no início da noite do dia 28 de março, um médico do HZS teria solicitado um leito de Unidade de Terapia Intensiva (UTI) no Hospital Universitário, que junto com a Santa Casa, era a referência para os casos mais graves da doença. Izabel não resistiu e morreu vítima de falência de múltiplos órgãos. ''Ela fez curso técnico e queria fazer enfermagem. No último dia, perguntei para um médico se não seria dengue mas ele reclamou se eu estava querendo saber mais do que ele'', contou a mãe.
A diretora de Epidemiologia e Saúde Ambiental da Secretaria Municipal de Saúde, Josemari de Arruda Campos, explicou que o órgão forneceu ''todas as informações'' solicitadas pelo MP. O material recolhido da paciente foi enviado aos laboratórios de referência e os exames confirmaram infecçção pelo vírus da dengue. A direção da 17 Regional de Saúde afirmou que deverá se manifestar somente após a notificação oficial assim como a direção do HZS, que não soube informar o resultado de uma sindicância interna aberta para apurar o caso. No Conselho Regional de Medicina (CRM), nenhum médico foi encontrado para comentar o assunto. A reportagem tentou contatar o Conselho Regional de Enfermagem (Coren) no final da tarde mas as ligações não foram atendidas. (Colaborou Fernando Rocha Faro)


