Silvana Leão
De Londrina
O Brasil ganha a cada ano cerca de 8,5 mil novos casos de traumatismo raque-medular, e cada paciente custa ao Estado ou à família, em média, R$ 100 mil nos dois primeiros meses de tratamento. Estes números foram revelados ontem em Londrina pelo médico Tarcísio Eloi Barros Filho, professor associado do Departamento de Ortopedia e Traumatologia da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (USP) e presidente da Sociedade Brasileira de Estudos do Lesado Medular. Ele proferiu palestra na 4ª Jornada Interdisciplinar de Assistência ao Paciente com Traumatismo Raque-Medular, que terminou ontem na cidade.
A causa mais comum deste tipo de trauma no País são os acidentes de trânsito (com exceção das cidades de São Paulo e Rio de Janeiro, onde a maioria dos casos é causada por armas de fogo), seguida de mergulhos malsucedidos – também chamados de lesão de verão – e quedas (principalmente entre os idosos). As sequelas dependem do tipo e extensão da lesão, mas na maior parte dos casos a vítima fica tetraplégica, perdendo os movimentos dos membros inferiores e superiores.
Na opinião de Barros Filho, que também é vice-presidente da Sociedade Mundial de Estudos de Lesão Medular, só campanhas mais intensas na área de prevenção poderiam diminuir o número de casos no País. Como exemplo, ele cita uma campanha nacional para alertar sobre os perigos dos mergulhos em locais desconhecidos, que conseguiu diminuir em 40% a ocorrência deste tipo de acidente. ‘‘O novo Código Nacional de Trânsito, logo que foi implantado, também diminuiu na mesma porcentagem a ocorrência do trauma medular.’’
O médico paulistano ressalta que os pacientes com este tipo de problema estão sempre à espera de uma descoberta milagrosa, que os faça caminhar de uma hora para outra. ‘‘Por isso o limite entre a ciência e o charlatanismo nesta área é muito tênue’’, alerta.
Segundo o especialista, existem mais de 100 drogas sendo testadas atualmente para os tratamentos das lesões. ‘‘Mas não existem medicamentos mágicos. O que buscamos é uma diminuição na lesão através da combinação de tratamentos indicados para cada caso e uso adequado das drogas. Isto tudo são pequenas peças que vão se encaixando e promovendo a melhora funcional do paciente.’
Mas Barros Filho acredita que a ciência está no caminho certo. Os ensaios em animais, segundo ele, têm demonstrado bons resultados. O País enfrenta, porém, outros problemas que retardam a recuperação dos pacientes. O mais grave, diz, é a falta de centros especializados no tratamento. Ele explica que as primeiras oito horas após o acidente são fundamentais para se tentar evitar a necrose secundária, que aumenta a extensão do comprometimento da medula, além daquele causado pelo trauma em si.
Hoje, o Centro de Atendimento ao Traumatizado Raque-Medular (Cenatra), do Hospital das Clínicas de São Paulo, é a principal referência no Brasil. Ali uma equipe formada por profissionais das áreas da ortopedia, neurocirurgia, cirurgia plástica, urologia, fisiatria, psicologia, enfermaria, clínica médica, terapia ocupacional, fisioterapia e serviço social desenvolvem trabalho multidisciplinar, fundamental para os avanços na recuperação.

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