‘‘Todo mundo chama o adolescente de ‘aborrecente’, denegrindo a imagem do jovem. Mas na verdade quem complica são os adultos’’, aponta o médico Walter Marcondes Filho, presidente da Associação Paranaense do Adolescente e coordenador do 1º Congresso de Adolescência do Cone Sul.
O congresso começou ontem, na Associação Médica de Londrina, e reúne especialistas do Brasil, Argentina, Chile e Estados Unidos. Hoje e amanhã, prossegue no pavilhão José Garcia Molina, do parque Ney Braga (zona oeste de Londrina).
Segundo Walter Marcondes, a idéia do Congresso surgiu porque ainda falta muita informação em relação ao tratamento dado aos jovens no Brasil, tanto na família quanto entre as pessoas que trabalham diretamente com este segmento. Por isso, a proposta foi reunir num mesmo evento profissionais das mais diversas especialidades - pediatras, psicólogos, ginecologistas, nutricionistas, pedagogos, entre outros -, além dos próprios pais e adolescentes em mesas-redondas e conferências.
O médico aponta que normalmente os problemas relacionados ao adolescente têm origem na família, sobretudo a partir da última década. A necessidade de o pai e a mãe saírem de casa para trabalhar, deixando o filho desde cedo em creches e escolas, seria um dos fatores fundamentais na geração do problema, já que a ligação afetiva dentro da família começa a ser afetada. Mais tarde, isso pode refletir na dificuldade de relacionamento - tanto em casa quanto na escola -, avançando para o campo do sexo (gravidez precoce, por exemplo), álcool, drogas, até explodir na violência. ‘‘Sobra trabalho mas falta diálogo entre pais e filhos’’, lamenta o médico.
Apesar da falta de informação, diz Marcondes, o Brasil tem um dos serviços mais avançados no atendimento ao adolescente - melhor do que países como Espanha, Portugal, França ou mesmo Inglaterra. A grande dificuldade, aqui, é mesmo em relação à estrutura física. Nos Estados Unidos, por exemplo, que é a maior referência nessa especialidade, com trabalho desenvolvido desde o final da década de 50, uma Unidade de Tratamento Intensivo (UTI) para adolescentes conta com televisão, videocassete, videogame, som e até quadro-negro para ser ‘‘pichado’’. Lá, os jovens e adolescentes somam cerca de 20% da população.
‘‘O problema lá é a família, que é muito mais desestruturada que a nossa’’, observa o médico. Marcondes teme que, em pouco tempo, o mesmo processo ocorrido nos Estados Unidos atinja o Brasil. O número geral de adolescentes brasileiras - garotas entre 15 e 19 anos - que já tiveram pelo menos uma gravidez, por exemplo, é de 18%, segundo dados do Ministério da Saúde. Os estados do Norte são os que apresentam índices mais preocupantes. No Acre, por exemplo, nada menos que 34% dos partos realizados são de adolescentes entre 10 e 19 anos.
O consumo de drogas também tem crescido entre os mais jovens, ainda segundo o Ministério da Saúde: 22,8% dos estudantes de 1º e 2º graus já tiveram contato com drogas psicotrópicas. Sem contar o consumo de bebida alcoólica. Walter Marcondes diz que o próximo evento que trata do tema acontece em abril: é o 8º Congresso Brasileiro de Adolescência, que será realizado em Gramado (RS).

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