Vânia Moreira
De Umuarama
Os ginecologistas brasileiros Carlos Gilberto Almodim, de Maringá, e Antônio Fernandes Moroni, de São Paulo, ganharam o primeiro prêmio de videocirurgia fetal conferido pela Sociedade Americana de Medicina Reprodutiva, sediada nos Estados Unidos. Moroni e Almodim são os primeiros especialistas brasileiros a ganhar o prêmio. Os dois desenvolveram uma técnica de videocirurgia que permite corrigir anomalias no feto dentro da barriga da mãe.
As intervenções cirúrgicas intra-uterinas feitas até então apenas contornavam o problema para garantir a sobrevivência do feto. Depois do nascimento, a criança tinha de ser operada de novo. Almodim vai receber o prêmio dia 29, em Toronto, no Canadá, durante o congresso anual conjunto da Sociedade Americana de Medicina Reprodutiva e da Sociedade Canadense de Fertilidade e Andrologia.
A técnica criada pelos dois médicos está revolucionando a cirurgia fetal. Ela permite intervenções cirúrgicas resolutivas, ou seja, os médicos podem resolver o problema do bebê ainda no ventre. As técnicas de cirurgia tradicionais permitiam apenas soluções paliativas. Se o feto tinha uma obstrução urinária ou uma hidrocefalia, era feita uma cirurgia para drenar o líquido e garantir a sobrevivência até o parto. Num caso de obstrução urinária, por exemplo, os médicos colocavam uma ‘‘magueirinha’’ na bexiga para escoar a urina para fora do corpo do feto. Depois do nascimento, era feita nova cirurgia para corrigir a obstrução.
Um equipamento minúsculo – uma alça de desobstrução com 0,3 milímetro de diâmetro inventada por Almodim – permite corrigir a desobstrução, resolvendo o problema. O bebê não precisa ser operado novamente quando nasce. Almodim e Moroni fizeram a primeira cirurgia deste tipo na América Latina em junho do ano passado no Hospital e Maternidade Santa Joana, em São Paulo. O bebê, no quinto mês de gestação, apresentava obstrução da uretra que levava à distensão dos rins e da bexiga. A retenção de urina causaria a a destruição completa dos rins e, consequentemente, a morte do feto. A cirurgia foi um sucesso. O bebê, um menino hoje com um ano de idade, nasceu saudável.
Para fazer a cirurgia, os médicos utilizaram um equipamento chamado fetoscópio acoplado a uma câmera de televisão. O equipamento com um milímetro de diâmetro foi introduzido no abdômen da mãe, dali ao abdômen do feto, penetrando no interior da bexiga fetal. Através de imagens de ultra-sonografia de alta resolução, foi possível localizar o ponto exato da obstrução e liberar a uretra, utilizando o equipamento criado por Almodim.
De lá para cá, os dois especialistas já fizeram 25 cirurgias para corrigir problemas de hidrocefalia, obstruções urinárias e derrames pleurais. Segundo Almodim, a tecnologia pode criar uma nova especialidade médica, a endoscopia fetal. Além disso, vai aprimorar o diagnóstico e tratamento de anomalias fetais. ‘‘Para nós, o prêmio da Sociedade Americana é o maior reconhecimento que poderíamos receber por anos de pesquisa, trabalho e investimentos da equipe e do hospital’’, disse Almodim.
O ginecologista começou a carreira em Umuarama, onde montou uma das clínicas de reprodução humana mais modernas do País. Conseguiu a primeira gravidez em mulher na menopausa no Brasil e entrou para o Guinness Book, o livro dos recordes. Também montou o primeiro banco de sêmen do Estado. Há três anos, Almodim transferiu sua clínica, a Materbaby, para Maringá e passou a desenvolver pesquisas em Maringá e São Paulo, junto com Antônio Moroni.Gilberto Almodim e o paulista Antônio Maroni desenvolveram técnica cirúrgica que corrige problemas do feto
Vânia MoreiraRECONHECIMENTOGilberto Almodim inventou o equipamento que faz a cirurgia no fetoDIVULGAÇÃONOVIDADETécnica permite intervenções cirúrgicas resolutivas ainda no ventre

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