Médico fala sobre morte de secretária
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segunda-feira, 31 de março de 1997
Lucília Okamura 
Mário CésarNo FórumO médico e professor João Bento Moura Neto: pela primeira vez, o namorado da vítima e ex-marido da ré falou à Justiça sobre o casoO médico e professor João Bento Moura Neto prestou depoimento ontem à tarde, no Fórum de Londrina. Ele foi arrolado como testumunha de acusação e é considerado o pivô da morte da secretária Jacqueline Carneiro Lobo, 21 anos, ocorrida em novembro do ano passado. A vítima era namorada do médico e foi morta com um tiro na cabeça, desferido pela dona-de-casa Maria Suely Costa Moura, 38 anos, ex-mulher dele. O crime aconteceu no escritório de advocacia onde a vítima trabalhava, na rua Piauí (centro). Jacqueline Lobo morreu após ficar 29 horas em coma, na Santa Casa.
O depoimento do médico, prestado à juíza substituta da 1ª Vara Criminal, Oneide Negrão de Freitas, durou aproximadamente três horas e meia. Segundo o advogado da dona-de-casa, Antônio Amaral, o depoimento foi de relevante importância, já que provou que o médico e a vítima se conheciam desde 1993 e começaram um relacionamento amoroso em janeiro de 1995. João Bento disse que Maria Suely ficou sabendo do relacionamento em janeiro do ano passado, o que fez com que, segundo o advogado, ela sofresse muito.
Ficou provado que Jacqueline não era uma simples namorada do Bento, como se afirmou na esfera policial, observa o advogado. Segundo ele, os dois já estavam juntos quando aconteceu a separação entre o médico e Maria Suely, em outubro de 1996. Antônio Amaral comenta que, desde o início, a defesa afirma que o crime é um homicídio passional e que a sua cliente agiu sob forte emoção. A Promotoria Pública denunciou Maria Suely por crime qualificado por motivo torpe.
O advogado da família da vítima, João dos Santos Gomes Filho, acredita que o depoimento do médico em nada acrescenta ao quadro probatório. É evidente que a defesa queira dar uma conotação passional ao crime, observa. A premeditação é tão evidente e cristalina, que não vê-la é não enxergar o Direito. Ele lembra que Maria Suely comprou a arma usada no crime e tentou ter aulas de tiro.
Na opinião do promotor da 1ª Vara Criminal, Janderson Camões de Carvalho Yassaka, o depoimento de João Bento foi excelente, já que comprovou que o casamento entre ele e Maria Suely já não tinha volta. Independente de João Bento estar com a Jacqueline, ele disse que iria se separar, observa. Ele tinha dito a Suely que não gostava mais dela e que Jacqueline não era a culpada pelo fracasso do casamento.
Segundo o promotor, o médico confirmou que a sua ex-mulher telefonou algumas vezes para Jacqueline e, tentou, de certa forma, ameaçá-la. Janderson Yassaka também diz que o fato deles terem iniciado um relacionamento amoroso antes da separação não altera o rumo do processo. A premeditação existe porque ela comprou a arma. Ainda segundo o promotor, João Bento disse não saber se Jacqueline ligou alguma vez para Suely.
João Bento não quis falar com a imprensa e, ao fim do depoimento, saiu escoltado por integrantes da tropa de choque do 5º Batalhão da Polícia Militar. Outras sete testemunhas arroladas pela acusação seriam ouvidas ontem, mas a audiência foi transferida para amanhã à tarde.
A fase dos depoimentos teve início em 14 de março, quando foram ouvidas as duas primeiras testemunhas de acusação - Silmara Lobo, mãe de Jacqueline, e a advogada Elaine Cristina Gomes. A juíza Oneide Negrão substitui o juiz titular da 1ª Vara Criminal, Jurandir Reis Júnior, que se sentiu impedido de atuar no caso. O afastamento do juiz foi solicitado pelos advogados de defesa da ré.
A dona-de-casa cumpre prisão domiciliar desde janeiro, quando o Tribunal de Justiça do Paraná lhe concedeu habeas corpus. A alegação é que Londrina não tem condições de oferecer prisão especial à ré até o julgamento. Maria Suely tem direito a cela individual por ter curso superior - é formada em Enfermagem pela Universidade Estadual de Londrina (UEL). A pedido dos advogados de defesa, Maria Suely foi submetida a uma bateria de exames de insanidade mental, na tentativa de desqualificar o crime.


