Josoé de CarvaOpinião médicaPaulo Chenso: ‘Menores sentem raiva da sociedade e, sob efeito da droga, se vingam praticando crimes’Apesar de ser considerada pelas pessoas como uma droga leve, a cola de sapateiro - produto à base de tolueno, um derivado do petróleo - é tão problemática como qualquer outra que causa dependência psicológica. Ela causa efeitos não alucinógenos muito parecidos com os provocados por outros solventes voláteis presentes em esmalte, tinner, gasolina, tintas e querosene. Essas avaliações são do médico da Santa Casa Paulo André Chenso.
Segundo ele, a cola age diretamente no sistema nervoso central e provoca alterações no estado mental cerca de 15 minutos depois de aspirada. ‘‘A cola faz parte de um grupo com aproximadamente 50 solventes voláteis. Ela é a mais usada pelos menores de rua em consequência do baixo preço e facilidade na aquisição’’, comenta Chenso, que é também professor de Biologia em colégios particulares e trabalha com a prevenção do uso de drogas por adolescentes.
O médico garante que a cola de sapateiro, a exemplo dos demais solventes, não provoca dependência física ao usuário. ‘‘O que ocorre é um vício psicológico, porque a cola provocar efeitos de euforia semelhantes ao da cocaína. Por cerca de 45 a 50 minutos, o drogado deixa de sofrer com a fome, o frio, o medo’’, explica Paulo Chenso.
‘‘Sob o efeito da cola, a pessoa se sente forte, corajosa, e capaz de praticar atos anti-sociais - como o roubo - que não faria em sã consciência. No caso dos menores de rua, eles passam a se vingar da sociedade por todas as suas frustrações’’, comenta o médico. ‘‘Eles quiseram doce, sorvete, comida, escola, uma família, mas não tiveram. Eles sentem raiva da sociedade e, sob o efeito da droga, se vingam dela praticando crimes. A agressão é uma resposta ao abandono social em que vivem.’’
De acordo com o médico, os principais efeitos do uso da cola são sensação de bem-estar e alterações no comportamento. Passado o efeito, fica a sensação de ressaca parecida com a provocada por uma bebedeira. ‘‘Mas ela não provoca a dependência física, como o álcool e os derivados do ópio, entre os quais estão a morfina e heroína. A cola de sapateiro também não chega a causar alucinação - que é diferente de ilusão -, processo em que o drogado transforma em realidade o seu sonho’’, afirma Chenso.
Ele diz que, para causar alucinação a cola teria que ser aspirada em tão grande volume que antes provocaria paradas cardíacas e risco de morte. ‘‘Para alcançar o nível de alucinação, só com uma superdosagem, com um alto nível de intoxicação por cola. Isto é muito raro; neste estágio de necessidade, os usuários procuram outras drogas mais fortes’’, ressalta.
O médico explica que as consequências de uma overdose de cola podem até levar à morte. Ele dá um exemplo: ‘‘Dentro do saco plástico usado, a concentração do solvente químico é muito grande. Se a pessoa cheirar com muita intensidade, pode desmaiar. Caso o saco com cola não seja tirado do rosto da pessoas desmaiada, ela pode morrer asfixiada em poucos minutos. Algumas crianças já morreram nestas circunstâncias em Londrina.’’
Na opinião dele, o momento em que os adolescentes estão mais suscetíveis ao ataque dos traficantes é por volta dos 12, 13 anos. ‘‘Pensando que estão preparados para enfrentar o mundo sozinhos, eles tentam se separar dos pais e buscam um grupo de identificação. É a tal síndrome do afastamento paterno. E, para serem aceitos no novo grupo, os adolescentes têm que seguir e imitar o líder. Se este consome drogas, os novos membros terão que consumi-las, para serem aceitos’’, explica o médico.
Paulo Chenso conta que, em 15 anos de profissão, aprendeu que tão importante quanto combater as drogas é descobrir e resolver a causa que levou a pessoa ao consumo: ‘‘Todo usuário, de qualquer camada social, procura a droga para fugir de algum tipo de sofrimento. Devemos ajudar a curá-lo.’’
(Osmani Costa)

mockup