Médico culpa neoliberalismo por crise
Professor de bioética diz que governo é maior culpado pela situação caótica de hospitais. E dá como exemplo a falta de reforma no HU
Osmani Costa
César AugustoCríticaSiqueira: ‘É vergonhoso’ A atual crise no atendimento aos pacientes do Sistema Único de Saúde (SUS) pelos hospitais de Londrina - agravada nas últimas semanas, com o aumento das doenças comuns a este período frio do ano - era previsível há vários anos, pela falta de investimentos na ampliação da infra-estrutura disponível. A avaliação é do cardiologista José Eduardo de Siqueira, professor de bioética no curso de Medicina da Universidade Estadual de Londrina (UEL).
‘‘Faz mais de 20 anos que o número de leitos nos três hospitais terciários - Santa Casa, Evangélico e Universitário - permanece inalterado. Neste tempo, cresceu bastante a população de Londrina e da região, que envia pacientes para atendimento. Mas o governo não investiu no aumento e na melhora do atendimento. Por isso, os hospitais estão superlotados e os pacientes sendo tratados sem dignidade’’, comenta Siqueira. Ele é considerado a maior autoridade londrinense em bioética, disciplina ministrada aos alunos do 5º ano de Medicina, no Hospital Universitário (HU).
Na opinião de Siqueira, o abandono da saúde pública é uma tendência da política econômica neoliberal, implantada pelo governo em todo o País. ‘‘Esta tendência é a de terceirizar, privatizar os serviços de saúde. Isso é muito sério e absurdo. A educação e a saúde são direitos básicos do cidadão e deveres básicos do Estado. O descumprimento desse dever e o abandono desse direito da população são uma irresponsabilidade tremenda.’’
O cardiologista lembra, como exemplo de descaso do poder público, a falta da reforma e ampliação do HU de Londrina - reinvindicação antiga. ‘‘Este projeto existe, está no papel à espera de recursos, há mais de dez anos. Entra governo, sai governo, e as verbas para as obras não vêm. Isso é vergonhoso’’, comenta. A ampliação do Hospital Universitário aumentaria o número de leitos de 280 para 400. O custo seria de R$ 30 milhões.
Na opinião de Siqueira, o principal caminho para o aumento de leitos em hospitais de grande complexidade é a ampliação do HU, porque, além de serem da rede privada, a Santa Casa e o Evangélico não possuem espaços disponíveis para obras de aumento da capacidade instalada. ‘‘Mas o governo não se mostra preocupado com a qualidade de vida da nossa população, não tem a saúde pública como prioridade. Infelizmente, ele só pensa do ponto de vista econômico, em números, na elevação do Produto Interno Bruto’’, ressalta José de Siqueira.
O médico especialista em bioética diz que os governos neoliberais esquecem-se do ser humano e têm no desempenho da economia a sua prioridade única. ‘‘É por isso que chegamos a este caos nos hospitais, no atendimento público do setor da saúde. Os governantes passam a ver só números e dinheiro. Enquanto isso, os doentes são atendidos nos corredores, são internados em macas’’, comenta o professor da UEL. ‘‘Há alguns anos, a gente se sentia mal com um ou outro paciente sendo atendido em macas. Hoje, que tem vaga em maca é um privilegiado. Ou seja, vamos nos acostumando com a indignidade, com o desumano, com o inaceitável. Isso é muito ruim.’’
Toda esta situação levou, de acordo com Siqueira, a uma situação muito complexa: os hospitais são bem equipados mas vivem superlotados e são mal pagos. Os médicos trabalham em excesso - não têm tempo para dormir e se alimentar direito - e ganham pouco. E os pacientes são muito mal atendidos, depois de longas filas. ‘‘A saúde pública está na UTI, e o paciente agoniza. E o pior é que, sem mudanças de rumo no governo, não temos boas perspectivas.’’

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