O ginecologista e obstetra João Henrique Steffen Junior é memória viva e parte integrante da história do Hospital Evangélico de Londrina, cujo estatuto para sua construção foi aprovado em 25 de outubro de 1948. Dos 50 anos de existência da Sociedade Evangélica Beneficente, Steffen participou de 48 anos. Para comemorar data tão significativa, o médico está lançando o livro ‘‘Hospital Evangélico de Londrina - Como vi e vivi - História do antigamente’’, um relato em primeira pessoa dos fatos significativos vividos por ele. Além da visão pessoal do médico, o livro é fartamente ilustrado com fotos, resgatando visualmente o passado da entidade.
Pioneiro e idealista, Steffen foi colocando em doses homeopáticas no computador lembranças de sua atuação como médico e aquilo que considera a história do Hospital. ‘‘Mas não no sentido de sequências e datas, e sim, como senti e vivi.’’ Além de médico, João Henrique atuou por 35 anos como diretor clínico do Hospital. O livro foi uma oportunidade de reflexão de tantos anos de trabalho. ‘‘Por que me envolvi tanto?’’, questiona-se o médico.
Além do convite para trabalhar em Londrina feito pelo reverendo Luiz Boaventura, Steffen tinha um propósito idealista de colaborar por dois anos com seu trabalho, como retribuição à ajuda que obteve para se formar em medicina. Veio para a cidade em 1950, com a pretensão de voltar para São Paulo, onde se formou. Esse projeto não se realizou, pois ele está até hoje em Londrina.
‘‘Estava amanhecendo e era uma Quarta-Feira de Cinzas. Cheguei, de carona, em uma Baratinha Ford (um coupê), apelidada de ‘Me Leva’ (...) Quando chegamos a Londrina e ao passar pelo centro da cidade, vimos os varredores limpando as ruas dos confetes e serpentinas, restos da folia do último dia de Carnaval’’, destaca o autor no livro.
O médico acompanhou todo o desenvolvimento do Hospital Evangélico. Segundo ele, sua construção foi motivada pelo número cada vez mais crescente de evangélicos residentes na região, atraídos pelo desenvolvimento do norte do Paraná. Quando eles ficavam doentes ou se acidentavam, procuravam os pastores das igrejas. Famílias desprovidas de recursos também necessitavam de atendimento médico-hospitalar.
Hospitalzinho Naquela época, o limite da cidade era a Rua Alagoas, e numa escola desativada começou a funcionar improvisadamente o hospital, com atendimento ambulatorial. ‘‘Os casos cirúrgicos eram atendidos na Santa Casa. Posteriormente foram feitas as salas de cirurgia e maternidade’’, relembra. Era tão minúsculo que ficou apelidado de ‘‘Hospitalzinho’’. O Hospital Evangélico de Londrina ficou naquele endereço até 1972. Atualmente naquele local funciona a Cohab.
Com recursos da Central Evangélica Alemã, uma organização assistencial, foram obtidos recursos para a ampliação da entidade. Elias Cezar, então administrador hospitalar, foi quem sugeriu um projeto maior, visto que possuíam dinheiro para a construção. Depois de vários contatos, e muita habilidade, Cezar conseguiu convencer Jan Niedziejko a fazer a doação de 10.000 metros quadrados, na Avenida Bandeirantes, onde hoje se localiza o hospital.
‘‘As dificuldades sempre foram financeiras. Durante muito tempo precisávamos fazer improvisações. Não tínhamos gerador, por exemplo, e chegamos a operar à luz de lampião’’, lembra. Nas novas instalações, a idéia de segmentação das especialidades foi sedimentada, sendo que vários profissionais de renome foram trazidos, tentando evitar ao máximo a polimedicina.
‘‘Aqui tudo estava para ser feito. Não podíamos depender do poder público. Foi a coletividade quem gerou o Evangélico. Sou um participante que sobreviveu às intempéries’’, afirma emocionado. Como hospital referência da região, o Evangélico realizou vários procedimentos inovadores, como o primeiro transplante renal do Paraná, cirurgias cardíacas e neurológicas pioneiras, introdução do método do parto sem dor, entre outros.
Aos 75 anos, além de atender em sua clínica, João Henrique atua como membro do corpo clínico do Evangélico. Steffen confessa com pesar que seu afastamento da direção clínica foi muito sofrida. ‘‘Mas há um tempo determinado para todas as coisas’’, admite.

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