Lúcio Flávio Moura
Enviado a Arapongas
O atendimento médico para presos de Arapongas (37 km a oeste de Londrina) na própria delegacia – inédito no Norte do Paraná – pode ser mais uma medida para melhorar a situação da população carcerária e diminuir os riscos de fugas. A constatação é dos idealizadores e executores do programa, que funciona há menos de um mês e já atende seis pacientes por dia, quatro vezes por semana.
A iniciativa está sendo analisada pela Secretaria Estadual de Segurança Pública e pode ser estendida a outros municípios. O programa foi implementado com apoio da Secretaria Municipal de Saúde, que aceitou a sugestão do presidente do Conselho Comunitário de Segurança do município, José Poliseli.
‘‘É uma reivindicação antiga das famílias dos presos e das autoridades de segurança que eram obrigadas a correr riscos quando os transportavam para o posto de saúde e hospital’’, justifica Poliseli.
Segundo o delegado-adjunto de Arapongas, Édimo Ermenegildo, a ida do médico à delegacia evita também o transtorno de deslocar homens e viaturas para realizar o serviço, o que dificultava outras tarefas cotidianas. ‘‘Agora o preso só é deslocado em caso de extrema necessidade’’, diz Eucir Zanatta, coordenador técnico-administrativo do Plantão 24 Horas.
Cerca de 30 consultas já foram realizadas pelo médico Elias Jorge Maluf, clínico-geral deslocado do Plantão 24 Horas, serviço de pronto-socorro municipal. Os principais problemas encontrados entre os detentos são de infecção urinária, dermatites (doenças de pele) e distúrbios do aparelho digestivo.
Na semana que vem, serão feitos exames preventivos de sangue – inclusive o que identifica a presença do vírus HIV –, fezes e urina. ‘‘É um direito deles, se preferirem não fazer, não serão obrigados’’, afirma o médico. A Folha apurou que muitos detentos não aceitam fazer o exame que detecta o vírus da Aids, temendo discriminação.
Por enquanto, o serviço é apenas de atendimento ambulatorial e não inclui programas educativos de higiene. ‘‘É complicado implantar normas de higiene em ambientes superlotados’’, admite Maluf. Com 45 presos espremidos em um espaço para 24, a delegacia convive com o mesmo problema da maioria das unidades prisionais provisórias do País: a presença de grande número de presos julgados e condenados.
Quase a metade detentos aguarda vaga no sistema penitenciário. Um dos 22 condenados é Milzo Vendrametto Júnior, 32 anos, que já cumpriu um ano e meio dos seis anos da pena por tráfico de drogas. Filho de uma família de classe média alta da cidade, constatou em sua última consulta na delegacia infecções na garganta e no ouvido, tratadas com medicamento fornecido pelo município, cuja a aplicação fica a cargo do carcereiro.
‘‘A vida sedentária causa formigamento, dores no corpo, estresse e depressão’’, queixa-se. Vendrametto, como os outros presos, toma banho de sol diariamente e, segundo funcionários da delegacia, é um dos mais higiênicos e organizados. ‘‘O atendimento alivia um pouco nosso sofrimento e o medo de ser contaminado por outros presos’’, destaca Vendrametto, que há pouco tempo escapou de um surto de sarna na cadeia.

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