Evandro Fadel
Agência Estado
O diretor do Instituto do Fígado, em Curitiba, Marcial Ribeiro, anunciou ontem a cura de câncer de fígado com metástase no pulmão de uma mulher de 74 anos, que era considerado incurável. Segundo ele, o tumor foi isolado e tratado com substâncias químicas, enquanto também se atacava, durante dez meses, a causa do câncer, que era uma hepatite crônica do tipo C. ‘‘Não há mais nenhuma lesão’’, garantiu. Ele não revelou o nome da paciente.
Segundo Ribeiro, caso não fosse tratada a causa - hepatite C - o tumor poderia voltar. No ano passado, de 17 pessoas com câncer que passaram pelo instituto, 14 tinham como causa o vírus C. Para ouvir o relato esteve ontem em Curitiba o diretor do Laboratório SciClone, de San Mateo, na Califórnia (EUA), Kenneth Cowan, responsável por desenvolver o medicamento Zadaxin, que tem como princípio ativo a timosina, produzida pela glândula timo e que foi usado por Ribeiro no tratamento da hepatite.
O remédio, colocado no mercado em 1991, ainda está com processo de registro em estudo nos Estados Unidos e no Brasil, por isso foi importado pelos pacientes de alguns países da América do Sul e da Itália, onde já foram aprovados. De acordo com Ribeiro, o instituto brasileiro tem alcançado os melhores resultados mundiais com a utilização desse medicamento associado ao Interferon para a cura da hepatite C.
Ele começou os trabalhos com essa associação em 1992. Para o controle científico, Ribeiro selecionou 15 pessoas. Dessas, 80% mostraram que o vírus da hepatite C tinha desaparecido do sangue no prazo de um ano. ‘‘Ainda não significava cura, mas algo de novo acontecia’’, disse. Eles continuaram sendo tratados e, no prazo de 36 meses, 37% foram declarados totalmente curados. ‘‘É quase zero a chance de a hepatite C voltar’’, comemorou o médico.
O método adotado por Ribeiro, que aplica três doses por semana, é mais que o recomendado pelo laboratório, de duas doses semanais. ‘‘Mas pode ser feito um ataque mais agressivo porque não há efeitos colaterais’’, afirmou Kenneth Cowan. Segundo Marcial Ribeiro, alguns doentes com cirrose, que esperavam em fila de transplante, já melhoraram a qualidade de vida e a doença diminuiu.
O médico disse que para pacientes mais resistentes ao tratamento, ele tem feito uma associação de outros medicamentos, além do Interferon e Zadaxin, conseguindo melhor resposta. ‘‘O que surpreende é a rapidez com que o vírus se torna negativo’’, disse. ‘‘Estou chegando próximo ao método de cura ideal’’. A preocupação dos hepatologistas com a hepatite C é o fato de ela ser conhecida como ‘‘epidemia silenciosa do século’’. Não há sintomas explícitos sendo o mais comum o cansaço físico sem explicação aparente.
‘‘Se a pessoa fez transfusão com três ou mais frascos de sangue antes de 1989 (quando foi descoberto o vírus), as possibilidades de ter a doença aumentam’’, disse Ribeiro. O vírus ataca o fígado, provocando hepatite crônica, fibrose, cirrose e, por fim, câncer.
O diagnóstico é fácil, mas o tratamento da doença é caro. Segundo Ribeiro, a pessoa gastará, em média, US$ 3 mil a US$ 3,5 mil por mês. Mesmo assim, bem mais barato que o transplante de fígado que está em cerca de US$ 75 mil no Brasil.

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