Médico alerta para o consumo de medicamentos
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terça-feira, 17 de dezembro de 1996
Célia Baroni 
As farmácias expõem promessas de saúde, não produtos para curar doenças. O resultado é uma ilusão coletiva de que o remédio dá saúde, quando, na verdade, a saúde depende unicamente de uma boa alimentação, educação e saneamento básico. Quem afirma é o médico e professor da Universidade Federal de Pernambuco e vice-presidente da Sociedade Brasileira de Vigilância a Medicamentos, José Augusto Cabral de Barros.
Especialista na área de epidemiologia de medicamentos, Barros está lançando o livro Propaganda de Medicamentos: Atentado à Saúde?, no qual questiona a hipervalorização dos medicamentos como fontes de saúde e a dimensão mágica dada pela propaganda destes produtos, veiculada pelos meios de comunicação de massa. Ele esteve em Londrina na última sexta-feira para dar curso a alunos da área de saúde no Hospital Universitário.
Contrário à propaganda de medicamentos nos meios de comunicação, José Augusto Cabral Barros lembra a frase de Galeno (médico da Idade Média): Todo medicamento é potencialmente um veneno. Todo o sistema de saúde brasileiro, enfatiza, leva a população a colocar toda sua esperança de saúde nos medicamentos.
Ele cita como exemplo a ansiedade no consumo de vitaminas sintéticas, quando seria mais salutar, barato e eficaz absorver estas mesmas vitaminas através da alimentação - encontradas em frutas e verduras. Há um consumo irracional e desnecessário de medicamentos no Brasil, solidificado através da política de saúde nacional pelo poder da indústria farmacêutica, afirma Barros.
Barros acrescenta que a população não tem noção do perigo da utilização inadequada de medicamentos e sofre as consequências, desconhecendo, inclusive, os motivos destas consequências. São comuns os casos de intoxicação e perda de audição pelo uso equivocado de antibióticos.
Para comprovar esta avaliação, Barros fala da complacência com que o Poder Público trata as infrações da indústria farmacêutica.
O especialista lembra da lei que obriga as indústrias a colocarem na embalagem, em letras garrafais, os componentes ativos do medicamento. A lei determina ainda que o nome de marketing do produto deve aparecer em letras pequenas e de pouco destaque. Aprovada em 93, a lei até hoje não é cumprida, informa Barros. Muitas outras leis que garantiriam melhora na qualidade de vida da população não são respeitadas pela indústria farmacêutica, afirma o médico e professor.
O professor José Augusto Cabral de Barros informa que a indústria farmacêutica investe cerca de 20% do seu faturamento global em marketing e publicidade - gasto que, segundo ele, é incluído no preço final do medicamento. Mas, ao contrário do que se possa imaginar, a maior parte do investimento é feito em propaganda subliminar: promoção de eventos, subsídios à publicação de revistas médicas, brindes e amostras grátis.
O alvo desta propaganda não seria o usuário do medicamento mas o profissional de saúde, que começa a ser cooptado desde os bancos da universidade. Ainda de acordo com uma pesquisa de mestrado feita por Barros, a indústria farmacêutica gasta cerca de US$ 5 mil por ano por médico com propaganda subliminar.
Ele explica que existem cerca de 30 mil especialidades farmacêuticas no mercado e, no dia-a-dia do médico são utilizadas apenas cerca de 300. As empresas disputam para ter seus produtos entre as 300, acrescenta. A participação do médico no esquema das indústrias farmacêuticas, acredita Barros, é inconsciente. A propaganda é feita de tal forma que parece mais uma lavagem cerebral, e a utilização de um determinado laboratório, em detrimento de outro, passa a ser justificada e lícita, comenta.
O professor afirma ainda que, no Brasil, o médico não dispõe de informativos independentes. Todas as revistas médicas são patrocinadas pela indústria farmacêutica, diz. O mesmo processo é utilizado com os balconistas das farmácias, que também são alvo da indústria farmacêutica: recebem brindes, participam de sorteios de produtos eletroeletrônicos e outros. Mas, para Barros, o mais acintoso é a premiação por quantidade de vendas.
Algumas empresas, conta, chegam a trabalhar com a bonificação. O sistema consiste em vender à farmácia ou rede caixas de 24 a 36 unidades de um determinado produto, pelo preço de 12. Quanto mais a farmácia vender deste produto, maior será seu lucro. Outras ainda adotam a técnica de pagar o balconista de farmácia como é feito com o balconista de lojas de roupas: porcentagem por venda.
O descumprimento da lei que obriga a permanência de um farmacêutico no estabelecimento abre espaço para a empurroterapia. Os balconistas prescrevem a medicação e vendem produtos sem receita médica. Afinal, seu faturamento mensal passa a depender diretamente da quantidade vendida e não da qualidade do atendimento, critica.
Para solucionar o problema, Barros defende a mudança do currículo dos cursos superiores de saúde (farmácia, medicina, enfermagem), com a inclusão de disciplinas que privilegiem tratamentos alternativos. Entre estes, o médico cita a fitoterapia: É eficaz e economicamente viável.


