Médico alerta: bateria é risco para crianças
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terça-feira, 13 de outubro de 1998
Lúcio Horta 
A chuva de produtos eletrônicos, que começaram a entrar no País a partir da facilidade nas importações, e o desenvolvimento da indústria nacional acabaram gerando também uma preocupação a mais para os pais de crianças com até cinco anos de idade: as pequenas baterias circulares (ou em forma de pastilha) que alimentam produtos comuns hoje em dia, como agendas eletrônicas, relógios, aparelhos auditivos e até brinquedos. O grande perigo é a ingestão dessas baterias pelas crianças. Pelo menos duas crianças já morreram nos Estados Unidos em função deste problema.
Mário CésarEssa é uma situação moderna, produto do desenvolvimento tecnológico. Até a década de 80 era raro surgirem casos com esses, aponta o médico Lúcio Marchese, cirurgião pediátrico do Hospital Universitário (HU) da Universidade Estadual de Londrina (UEL). Ele recorda que, alguns anos atrás, a grande preocupação dos pais era evitar o contato das crianças com moedas ou fichas telefônicas, entre outros produtos pequenos, que tinham apenas uma ação mecânica no organismo humano. Já as baterias contém produtos químicos, com alto grau de intoxicação, e que por isso oferecem um perigo ainda maior.
Com tamanhos que variam entre oito e 23 milímetros, as baterias são formadas por metais tóxicos, como o mercúrio, o manganês, a prata e o lítio, e também substâncias cáusticas (que queimam o tecido), como o hidróxido de potássio. O revestimento é de níquel ou aço inox. O principal perigo é que as baterias fiquem presas no esôfago ou no estômago das crianças, fato que ocorre em pelo menos 10% dos casos de ingestão. Nos demais casos, o produto acaba sendo eliminado naturalmente através das fezes.
Um dos riscos que ocorrem quando a bateria fica presa no esôfago ou estômago é a ocorrência de lesões mecânicas por pressão, causando perfuração do órgão. Além disso, a bateria pode romper, corroída pelo suco gástrico, e provocar lesões cáusticas, ou seja, a liberação de produtos químicos corrosivos que queimam a mucosa. Isso pode provocar, por exemplo, estreitamento do órgão, fazendo com que ele deixe de ter um funcionamento normal. O tratamento, nestes casos, pode durar de dois a três anos. Seria como se o paciente tivesse ingerido soda cáustica, compara o médico.
Além desses problemas, a ingestão de baterias pode causar na criança queimaduras provocadas por descargas elétricas, levando desde o estreitamento até a perfuração do estômago ou a hemorragia. Lúcio Marchese observa que normalmente a descarga elétrica é mínima, mas que aos poucos também vai matando as células do órgão atingido. Outra preocupação é a liberação no organismo do mercúrio, que levaria a uma intoxicação gravíssima, a mesma que costuma atingir os garimpeiros que trabalham na extração do ouro.
O cirurgião pediátrico do HU destaca que se os pais perceberem problemas como esse devem procurar o médico imediatamente. Hoje são dois tipos de tratamentos: o conservador, que consiste em esperar a eliminação natural da bateria pelo organismo, em até 24 horas depois da ingestão. Durante este período, o hospital estaria monitorando a situação do paciente através de raios X e ultra-som.
Já quando a bateria fica presa no organismo, a solução é um tratamento mais agressivo, ou seja, a retirada do produto através de interferência médica. Este procedimento é feito por endoscopia, sonda especial com balão - também conhecida por sonda de Foley - ou então por sonda com imã na ponta (no caso do estômago). No caso de a bateria romper é necessário tratar rapidamente a intoxicação e também as lesões cáusticas consequentes. Neste caso, a retirada da bateria é considerada urgente urgentíssima.
Em Londrina, somente o ano passado, ocorreram pelo menos quatro casos de ingestão de bateria por crianças, todos eles tratados por Lúcio Marchese. Em dois dos casos o próprio organismo acabou se encarregando de eliminar o produto, depois do paciente ser medicado e tratado com dieta rica em fibras. Em outros dois casos, a bateria ficou presa (um no estômago e outro no esôfago) e foi necessária a retirada através da endoscopia.
O cirurgião pediátrico do HU informa que as baterias, quanto mais velhas, menos resistência apresentam. Além disso, tem surgido no mercado muitos produtos de procedência duvidosa, a maioria entrando no Brasil via Ciudad del Este, no Paraguai. Segundo ele, são baterias mais tóxicas e menos resistentes. As baterias boas são aquelas de aço inoxidável, com fechamento impermeável e resistentes à corrosão. Não é o que acontece com os produtos contrabandeados, destaca o médico. De qualquer forma, ele destaca, o mais importante é prevenir a ocorrência de acidentes, evitando sempre o contato das crianças com este tipo de produto.


