Médico aceita hipótese de crime
O médico Simão Morales Machado dirige há 11 anos o Hospital Missionário, construído pela Missão Presbiteriana Independente, que este ano comemora 71 anos de ação na Reserva Indígena de Dourados. Ele já atendeu vários casos de tentativa de suicídio entre os índios e aceita abertamente a hipótese de homicídio em muitos dos casos apresentados como suicídio.
Folha - O hospital missionário já atendeu casos de suicídios entre os índios?
Simão Machado - Muitos. Normalmente atendemos as tentativas que não se consumaram. Quando o índio morre, o corpo é encaminhado diretamente para a polícia, na cidade, e não passa por nós.
Folha - A maioria dos casos é de enforcamento?
Simão Machado - Não. Há muitos por ingestão de organofosforados. Nestes casos, quando a dose é alta, a morte é inevitável.
Folha - O senhor acredita na hipótese de tentativas de homicídio entre os casos de supostos suicídios?
Simão Machado - Claro! Há um pouco de tudo. Desde aquelas mulheres que tomam meia duzia de comprimidos ou apertam um pano no pescoço para chamar a atenção dos outros, como acontece no meio dos brancos, até suicídios verdadeiros e o aproveitamento desta onda para a prática de homicídios. O que existe aqui é um genocídio concentrado. Alcoolismo, espancamento e violência são práticas cotidianas na reserva.
Folha - Quais são os principais problemas de saúde dentro da reserva?
Simão Machado - Os índios de nossa reserva sofrem exatamente as mesmas doenças das populações brancas concentradas nas periferias dos centros urbanos. Gastroenterites, doenças respiratórias no inverno, piodermites, desnutrição, tuberculose e doenças venéreas. Eles estão amontoados aqui, como nossos habitantes de periferia. Saíram da vida nômade para a vida sedentária há muitas décadas. Na aldeia o saneamento é precário, não há água encanada. Portanto, a contaminação é geral. A aldeia está ao lado da cidade. Com a mesma força que as doenças, inclusive a Aids, chegam a Dourados, chegarão também na aldeia. É inevitável.

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