MEDICINA - Exercitando o dom da vida
PUBLICAÇÃO
quarta-feira, 23 de novembro de 2005
Phoenix Finardi<br> Reportagem Local 
Mulheres grávidas na menopausa, homens estéreis se tornando pais, bebês operados ainda dentro do útero materno... situações que mais parecem temas de filmes de ficção científica, fazem parte da rotina de trabalho de um dos maiores especialistas em reprodução humana do mundo, Carlos Gilberto Amodin. A clínica dele em Maringá já ajudou a gerar mais de dois mil bebês - pequenos milagres, ao longo dos últimos 20 anos. Esse paranaense tranquilo de 51 anos, pai de três filhas, professor da USP, colocou lado a lado no consultório as fotos das crianças que vieram ao mundo pelas mãos dele e os diplomas e prêmios - alguns internacionais, conquistados em 23 anos de carreira.
Louise Brown
O começo de tudo foi uma menininha chamada Louise Brown, o primeiro bebê de proveta do mundo, nascido em 1978 na Inglaterra. ''Assim que vi a reportagem, disse: é isso que eu quero fazer. Na época, virei piada'', lembra. Essa disposição para vencer desafios seria determinante na carreira do então jovem médico. ''O primeiro bebê de proveta feito na América Latina por um médico brasileiro foi nosso'', diz. Um pouco antes disso o Brasil registrava o primeiro bebê de proveta nacional, uma menina nascida em Curitiba, em 1984 -trabalho de médicos australianos, segundo Almodin.
Pesquisa em vez de fazenda
O dinheiro ganho com o trabalho, Almodin começou a investir em pesquisa. Hoje, ele tem um dos poucos grupos privados de pesquisadores no Brasil, com vários trabalhos premiados. ''Lá fora, a pesquisa tem um apoio enorme do governo e principalmente da indústria, é quase que uma parceria. Aqui a gente não tem isso, tem que investir do bolso. Eu tenho várias idéias que estão paradas porque aqui não tem esse apoio. Enfim, tem gente que ganha dinheiro e compra fazendas. Eu faço pesquisas''.
Homem estéril agora é pai
Um dos casos que Almodin acompanha de perto até hoje foi o resultado da primeira gravidez de homem estéril. O caso mudou o conceito de esterilidade masculina. ''Até então a gente achava que o homem infértil era aquele que não tinha espermatozóide no sêmen ejaculado. Nós conseguimos extrair uma meia dúzia de espermatozóides diretamente do testículo e fecundamos um óvulo. Agora, nem todo homem que não consegue ejacular espermatozóides é estéril. A gente sabe que ele pode engravidar uma mulher'', indica. O bebê, hoje uma adolescente de 16 anos, mora com a família no Paraná e visita o médico com frequencia.
Grávida na menopausa
Vencer o impossível parece ser um dos desafios preferidos de Almodin. Foi ele também quem tornou possível a gravidez da primeira mulher na menopausa, na América Latina. ''Todo mundo achava que mulher na menopausa não pode mais engravidar. Nós resolvemos usar um óvulo de uma mulher mais jovem. Essa mesma pesquisa estava sendo desenvolvida nos Estados Unidos e na Itália, ao mesmo tempo. O primeiro bebê foi italiano, duas semanas depois nasceu o americano e quatro semanas depois o brasileiro, por sinal, filho de uma mulher londrinense. Ela está no Guiness (livro de recordes)''.
Todo embrião é uma vida
De olho nos avanços da medicina reprodutiva, Almodin organizou o primeiro banco de sêmen humano do Brasil, na década de 80. Ele também se encarregou de encomendar um software e um protocolo específico para poder gerenciar um serviço de congelamento de embriões. ''Geralmente, nós fertilizamos 10 óvulos, implantamos 3 ou 4 embriões na paciente e congelamos o resto. A partir daí, ela ganha um prazo de 3 a 4 anos para usar esses outros embriões, senão, eles ficam disponíveis para doações. A partir do momento que eu congelo um embrião, ele só tem um destino: o útero de alguma mulher. Cada embrião é uma semente e eu tenho que fazer tudo para que aquilo vire uma vida'', garante. As pacientes que não concordam em doar embriões terão fecundados apenas os óvulos que serão depois implantados no útero dela. ''Se ela não concordar com essas alternativas, não faço o tratamento''. Almodin é contra o uso de embriões em pesquisas.
Menino ou menina
Outra coisa que o especialista não faz é descartar embriões baseado na preferência sexual do casal. ''Isso é possível, mas é ilegal. Eu não faço. Infelizmente, existem clínicas por aí que estão fazendo isso, mas não pode. Digamos que o casal diz prá mim que quer um filho homem; então eu usaria os embriões masculinos e faria o que com as meninas? Eu jogo elas no lixo?''. A única exceção admitida por Almodin se refere a casais portadores de doenças genéticas, por exemplo, a hemofilia. ''Nesse caso, vou evitar a gravidez dos meninos, exatamente para que eles não sejam portadores da doença. Mas daí eu tenho que congelar os embriões masculinos e esperar até que surja uma legislação específica falando o que eu devo fazer com eles''. Isso não significa que o médico seja contra a tentativa de escolher o sexo do futuro bebê: ''Eu não faço isso na fertilização in vitro, mas existem outras técnicas, mais simples''.
Duas cadeiras
Quando começou a trabalhar, no ínicio dos anos 80, Almodin recebia mais mulheres do que homens no consultório. Hoje, essa realidade mudou. ''Para nós, não existe homem ou mulher estéril; o que existe é casal infértil. Eu tenho duas cadeiras no meu consultório, uma para o marido, outra para a esposa. Sempre que uma mulher liga agendando uma consulta, a gente já avisa para ela trazer o marido''. Outra coisa que Almodin aprendeu com a experiência é que filhos não consertam casamentos. ''Já deixei de fazer tratamentos quando percebi que o casamento estava falido e o casal queria um filho prá resolver o problema deles''. E mesmo com tantas técnicas à disposição, o médico reconhece que existem casos insolúveis - por enquanto. ''Um exemplo é quando a mulher não tem o útero. Eu posso conseguir um óvulo e posso conseguir um espermatozóide - mas a falta de um útero eu ainda não posso resolver'', lamenta.
Barriga de aluguel
O objetivo maior da clínica, segundo Almodin, é fazer o casal feliz com o menor custo possível. Ele confessa que já usou várias barrigas de aluguel, mas que não gosta muito dessa solução. ''É arriscado, tem que passar por uma avaliação psicológica muito rigorosa. Não é só a mãe de aluguel que pode se apegar ao bebê que não é dela, mas os pais biológicos também podem rejeitar um bebê com quem não tiveram contato nenhum'', alerta.
Filhos para homossexuais
Nos últimos anos, vários casais homossexuais procuraram a clínica. ''Isso é outra coisa que eu não faço. Não julgo nem condeno ninguém, não tenho esse direito. Mas tenho o direito de me negar a ajudar esses casais a terem filhos''. A justificativa dele é que não existem provas científicas de que as crianças criadas por casais homossexuais se tornam adultos saudáveis, principalmente do ponto de vista sexual.
A maior emoção
Um dos momentos mais felizes da vida de Almodin, conforme ele mesmo conta, aconteceu há pouco tempo e foi matéria do programa Fantástico, da Rede Globo. Ele e um grupo de médicos operaram um bebê de cinco meses ainda dentro do útero da mãe. Ele tinha uma doença chamada 'espinha bífida' e estava condenado a nascer paralítico, sem controle da urina e das fezes. A descrição da cirurgia é inacreditável: abre-se a barriga da mãe, retira-se o útero para fora, abre-se o útero, o líquido amniótico é sugado e guardado; o bebê é imobilizado, operado. Depois, os médicos recolocam o líquido, fecham o útero e a barriga da mãe. Tudo isso em pouco mais de duas horas, numa sincronia perfeita de 14 mãos trabalhando juntas. Os próprios médicos pagaram as despesas - 15 mil reais. Quatro meses depois, o bebê nasceu, perfeito. O grupo já fez outras 6 cirurgias do mesmo tipo.
Transplante de ovário
No mês passado, participando de um congresso na Alemanha, Almodin ficou sabendo que um médico de Israel usou uma técnica inventada por ele, de transplante de ovário, para engravidar uma mulher. A técnica consiste na retirada de uma amostra do tecido germinativo do ovário, que é congelada e depois reimplantada. ''A mulher recupera todo o seu potencial de fertilidade, fica menstruada, pode engravidar normalmente. É muito mais vantajoso do que congelar apenas o óvulo'', indica o médico. A equipe de Almodin é a única no Brasil com autorização do CNPQ para realizar esse tipo de procedimento.
Um conselho
Apesar de todos os avanços na área de reprodução humana, Almodin acredita que o número de casais com problemas de fertilidade só vai aumentar. O motivo, segundo ele, é que as mulheres estão tendo filhos cada vez mais tarde. ''Elas colocam a carreira, a profissão, acima da família e isso eu não entendo. Minha mulher é médica e nenhuma das nossas três filhas atrapalharam a nossa vida ou a carreira dela'', comenta. ''Quando as pessoas se casam e querem ter uma família, elas têm que pensar que a melhor fase para as mulheres engravidarem é antes dos 30 anos. O ideal mesmo é até os 25 anos. O resto pode esperar, não é tão importante''.


