Da Redação
Quarenta e dois anos de idade, M.D.C. pensou em se matar três vezes. Ele disse que ficou transtornado quando sua esposa pediu a separação aparentemente sem motivo. Na primeira vez, pensou em matar os dois filhos e depois se matar. Nas outras ocasiões, ele tentou saltar do edifício Fuganti (centro de Londrina) que, na época, chegou a ficar conhecido como o local mais procurado pelas pessoas que tentavam praticar suicídios. Passaram-se 15 anos e hoje M.D.C. garante que superou aquela fase de ‘‘autodestruição’’. Ele conta as interferências de outras pessoas, que de alguma forma o ajudaram a não se suicidar. Quatro anos após a separação, ele se casou novamente e teve dois filhos. Quando se separou da primeira esposa ele ficou com um casal de filhos, que teriam sido a sua ‘‘tábua de salvação’’.
Folha de Londrina - Por que você teve vontade de se matar?
M.D.C - Eu achava que nada mais iria acontecer de bom comigo. Quando minha mulher me abandonou com os meus filhos, o mundo caiu sobre a minha cabeça. Eu era um cara honesto que vivia para a família. Ela nem quis saber dos meus valores. Primeiro, pensei em matar os meus dois pequenos (filhos) e depois dar um tiro na minha cabeça. Pensei muito... Daí eu achei que meus filhos nada tinham com a minha desgraça e resolvi me jogar do prédio do Fuganti. Soube que muitos se jogaram de lá. A primeira vez subi pela escada e cheguei até o quinto andar. Quando estava me preparando para o salto um menino, acho que tinha uns seis anos, perguntou se eu ia limpar as vidraças. Me apavorei e voltei atrás... A criança não poderia ver eu me matando.
Folha - Explique melhor o porquê de voltar atrás.
M.D.C. - Até hoje eu não sei explicar bem o que ocorreu. Parece que a pergunta do menino me fez pensar nos meus filhos e eu fiquei mais calmo. Duas semanas depois voltou aquele turbilhão na minha cabeça. Queria me matar. Era uma loucura minha, porque eu me sentia sozinho, mal amado, sem perspectiva nenhuma para o futuro. Mais uma vez subi pela escada do Fuganti e cheguei ao sexto andar. Sentei em um degrau da escada e fiquei esperando uma senhora sair do corredor. Fiquei quase uma hora e a mulher não saía. Fui para o sétimo andar e aí me encontrei com um amigo que não via há meses. Na conversa com ele comecei a pensar nos meus filhos. Voltei para casa. Lembro-me até hoje. Era um sábado e meus filhos, ao chegar em casa, estavam me esperando na sala. O maior (na época com sete anos) me abraçou e disse que estava com fome. Chorei baixinho e fui para a cozinha fazer o café para eles. Contei depois ao meu amigo o meu propósito de me matar. Ele não acreditou e até hoje me questiona a respeito sem saber se estou falando a verdade.
Folha - O que você sentiu no momento que mudou de idéia?
M.D.C. - Continuava a sentir um peso na cabeça. Minhas idéias eram confusas e nada dava certo. Normalmente, depois da confusão mental, despertava em mim um sentimento de culpa em relação a eles (os filhos). Procurei tudo que estava a meu alcance. Frequentei terreiro de macumba, centros espíritas e igrejas. Não me fixei em nenhuma delas, pois todas me ajudaram de alguma forma a acreditar em alguma coisa. Aos poucos aquela loucura foi terminando na minha cabeça.
Folha - Você chegou a procurar um médico?
M.D.C. - Cheguei, mas não tive dinheiro para continuar o tratamento. Fui apenas uma vez. O médico disse que eu deveria fazer análise e isto custava muito dinheiro. Acho que saí da desgraça por ter acreditado em alguma coisa maior, e descobrir que meus filhos precisavam de mim. Se pensar um pouquinho e encontrar algum valor na vida, a pessoa não vai procurar se matar.
(Paulo Ubiratan)

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