Érika Pelegrino
De Londrina
O nascimento de Érika foi um acontecimento muito especial para seus pais, Haroldo Ferrari Santos, 35 anos e Marlene Santos, 30 anos. Um ano antes de Marlene engravidar, depois de muitas tentativas, os médicos disseram que ela não poderia ter filhos. Assim quando veio a notícia da gravidez os pais, muito religiosos, a receberam como se fosse quase um milagre.
Érika nasceu no dia 8 de fevereiro de 1990 e sempre foi considerada pelos pais como uma menina especial. Era muito extrovertida, adorava andar de bicicleta, brincar de esconde-esconde e de amarelinha. Ia bem nos estudos, só não gostava muito de matemática.
Os estudos religiosos também eram levados a sério pela garota. A mãe sempre achou que a filha era precoce e que apresentava uma maturidade maior do que o comum para sua idade. Ela estava sempre atenta para as necessidades dos outros e se prontificava a ajudar toda vez que alguém estava em dificuldades.
A menina era o braço direito da mãe nos serviços de casa. ‘‘Ela era muito caprichosa, a casa ficava impecável quando ela limpava’’, conta Marlene.
Assim, quando a irmã nasceu, em 8 de fevereiro de 1997, ninguém se espantou com o comportamento da menina de sete anos que se transformou em ‘‘uma mãezona’’ para a pequena Mayara.
‘‘Elas estavam sempre juntas. A Mayara era a sombra da Érika, não largava a irm㒒, conta. Se durante o dia as irmãs não se largavam, à noite não era diferente. ‘‘A Érika sempre tirava Mayara do berço e a colocava para dormir na cama com ela. Uma vez eu ri muito quando entrei no quarto das meninas e vi a Érika toda encolhida dormindo no berço e a Mayara estirada na cama’’, lembra. ‘‘Com certeza, por causa do calor, a Érika foi para o berço e deixou a irmã na cama para não acordá-la’’.
Depois que a avó materna morreu, há sete meses, – ela ficava com as meninas –, Érika assumiu o papel de ‘‘mãezona’’ da irmã. Com a supervisão de uma vizinha, era ela quem cuidava de Mayara enquanto os pais estavam trabalhando. O ciúme da irmã às vezes se manifestava, como acontece com toda criança. Mas, segundo a mãe, nunca gerou brigas entre as meninas.
‘‘Mayara era muito cativante, as amigas mais velhas brigavam para ficar com ela’’, conta Marlene. ‘‘Eu sempre falei para o meu marido que ela era nossa filha, mas era do povo. Em qualquer lugar que eu ia ela não parava no meu colo porque sempre alguém vinha pegá-la.’’
Érika também cativava com sua alegria, mas a característica que mais chamava a atenção das pessoas que conviviam com ela era a responsabilidade. Sempre que a família estava em dificuldades, a garota dava um jeito de ajudar ou vendendo os pães que a mãe fazia ou encerando a casa de uma vizinha.
‘‘Ela estava guardando dinheiro para comprar o aparelho de dentes que ela precisava’’, conta Marlene. ‘‘No final da tarde ela tomava banho, se arrumava bem bonita e ia vender os pães. Ela não tinha vergonha e quando vendia fiado voltava para cobrar’’.
Na manhã do domingo de 30 de janeiro, Érika estava especialmente feliz. Seu aniversário estava próximo e a festa já estava sendo preparada. A garota ia completar 10 anos e tinha passado da classe de crianças para a de jovens da escola dominical. ‘‘Ela queria muito entrar na classe de jovens e estava muito contente por ter conseguido’’, conta Marlene.
De manhã saiu cedo e foi para a escola dominical. Depois voltou e foi com a família passar o dia na casa do tio. ‘‘Foi um dia muito gostoso. As meninas estavam muito carinhosas’’, conta o pai. À noite, no carro, quando retornavam do culto, as meninas estavam cansadas e com sono. ‘‘Eu virei para traz e falei para a Érika deitar no banco com a Mayara, para dormirem’’, lembra Marlene.
A Érika não quis e disse para a mãe: ‘‘Eu vou pegar a ‘‘gorda’’(Mayara) para dormir no meu colo’’. Marlene virou para frente e o Del Rey dirigido por seu marido se chocou com um Ford Ka, no cruzamento da Avenida Rio Branco com a Brasília, às 23 horas. Érika e Mayara não resistiram aos ferimentos...
O acidente que elevou o número das vítimas de trânsito do mês de janeiro também cancelou a festa de aniversário que aconteceria onteontem. As brincadeiras com a pequena Mayara serão imagens do passado para as amigas Maria e Leiziane. Os vizinhos não verão mais Érika, nos finais de tarde, caminhando pela rua com o carrinho de feira carregado de pães caseiros.
As brincadeiras de rua por um tempo não vão ter a mesma graça e alegria na Rua João Pereira da Silva Júnior. Marlene e Haroldo irão dormir sem ouvir o ‘‘bença, pai, bença mãe’’. A mãe busca forças na fé. ‘‘Elas estão melhor com o Senhor’’. Haroldo, com o olhar distante, afirma que às vezes ainda vê as meninas brincando na rua em frente de casa.