Mau tempo castiga moradores de rua
PUBLICAÇÃO
quarta-feira, 30 de setembro de 1998
James Alberti 
A chuva e o frio dos últimos dias castigaram mendigos e moradores de rua e mocós de Curitiba. A combinação do frio com o mau tempo dobra a procura pelos albergues mantidos pela Prefeitura. Segundo o diretor de desenvolvimento social da Fundação de Ação Social (FAS), Erotildes Antunes Xavier, em dias normais são atendidos nos setores de triagem do órgão cerca de 50 pessoas. Em dias com o clima de ontem, esse número sobe para mais de 100.
São poucas as pessoas que agem como o catador de papel, Dinacir Domingos de Melo, 34 anos, que não procurou a FAS. Ele mora em um mocó na rua Fernando Amaro, Alto da XU, com a mulher Carmelina Ferreira e disse que apela a Deus para combater o frio. Tem que pensar em Deus. É o único jeito de sobreviver, afirmou.
Nem mesmo Deus consegue impedir que o adolescente Oziel de Souza, 16 anos, passe muito frio. Nascido em São Paulo, Oziel mora a três anos em Curitiba e disse que não consegue se acostumar com o clima. A gente se agasalha mas não tem jeito, disse.
O paulista mora com mais quatro colegas em barraco de madeira, de cerca de quatro metros de comprimento por dois de largura. As frestas entre as tábuas são um tormento durante as noites frias e os dias de chuva. O que mais passa é vento. Ainda bem que o barraco não cai, afirmou.
Apesar do frio, Dinacir e Oziel disseram que não apelam à cachaça ou outras bebidas quentes para suportar o frio. Mas não é o que acontece, por exemplo, com os colegas de quarto de Oziel. Segundo ele, os companheiros tomam pinga para, como eles dizem, esquentar o frio.
O diretor da FAS acredita que pelos menos 300 pessoas, entre crianças, adolescentes e adultos, sofram com o frio nas ruas da capital. Xavier disse que dificilmente eles saiam das ruas, pois nelas conseguem dinheiro para manter vícios com drogas e álcool.
A gente os leva para os albergues. Eles ficam dois, três dias e fogem por causa da dependência, afirmou.
Segundo Xavier, além destes 300, há um número bem maior de pessoas que tem passagens rápidas pelas ruas. Conforme o diretor, estas aceitam o encaminhamento e acabam saindo das ruas. O trabalho é feito por funcionários treinados para fazer esse tipo de abordagem.


