Mau comportamento atrapalha tratamento
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sexta-feira, 22 de junho de 2012
Marian Trigueiros <br> Reportagem Local 
Há pouco mais de dois meses, Maria da Graça de Freitas, de 62 anos, sofreu um acidente vascular cerebral (AVC), que a deixou com algumas sequelas. Esta foi a segunda vez que ela passou pela situação: o primeiro episódio aconteceu 15 anos atrás. Como se não bastasse, na mesma época, foi diagnosticada com diabetes, que a estaria acompanhando por, pelo menos, oito anos sem seu conhecimento. Os medicamentos contínuos, portanto, já faziam parte de sua rotina. Mas, apesar de não confessar, foi somente no último mês que realmente começou a tomar corretamente os remédios para as duas doenças.
A mudança no comportamento foi fundamental para seu organismo começasse a reagir e os danos fossem minimizados. Separados em pequenos potes de plástico, as cartelas de remédios, agora, são distribuídas por horário para facilitar a ingestão correta das doses. Mais do que consciência, porém, o acompanhamento quase que diário de agentes comunitários de saúde (ACS) foi determinante para a boa adesão e continuidade ao tratamento medicamentoso. Isso porque a visita da agente responsável pela região trouxe organização e informação à paciente e à sua cuidadora.
Esta modificação não é um caso isolado e acaba de ser comprovada, ainda que indiretamente, por uma pesquisa realizada em Cambé (Norte). O levantamento faz parte de um projeto sobre Doenças Cardiovasculares no Estado do Paraná, o Vigicardio - estudo do programa de pós-graduação em Saúde Coletiva do Centro de Ciências da Saúde (CCS) da Universidade Estadual de Londrina (UEL).
O projeto visa entender como as pessoas estão do ponto de vista das doenças cardiovasculares que, por sua vez, ainda representam a principal causa de morte no Brasil e o principal fator de despesas do Sistema Único de Saúde (SUS). ''Até agora, já sabemos quem são os vulneráveis para as doenças, pois é um grupo o qual conhecemos os fatores de risco que estão ligados ao comportamento, como tabagismo e obesidade, e que são passíveis de prevenção. Pretendíamos com essa pesquisa saber como são essas pessoas'', explica o professor do Departamento de Clínica Médica do CCS, Marcos Cabrera, orientador da pesquisa.
A pesquisa, com 130 questões, foi realizada em todas as regiões do município com 1.180 pessoas, acima de 40 anos. Dentre os vários quesitos analisados, alguns chamaram a atenção: 70% dos entrevistados tinham feito uso de medicamentos até 15 dias antes da pesquisa e 55% deles fazem uso de remédios contínuos. O mais alarmante foi que 60% desses usuários disseram não ter aderido ao tratamento preconizado.
Conforme o farmacêutico Felipe Assan Remondi, mestre em Saúde Coletiva e responsável pela análise dos dados referentes aos medicamentos, este número representa preocupação, visto que seis a cada dez pessoas não tomam os remédios conforme o recomendado.
''Neste mesmo estudo levantamos também que três fatores aumentavam ou diminuíam a não adesão correta. Em primeiro lugar ficou a dificuldade de acesso aos medicamentos, seja por questão financeira ou falta deles na distribuição. Em segundo lugar, a não adesão foi agravada pelo grande número de vezes de ingestão, bem como de medicamentos. Já o terceiro mostrou um lado positivo: o acompanhamento dos agentes de saúde foi fundamental para o tratamento adequado'', pontua ele, que usou os dados em sua tese ''Não adesão ao tratamento medicamentoso contínuo e fatores associados: estudo de base populacional.''


